Transtorno de Estresse Pós-traumático

Dentre as principais sequelas psicológicas causadas pelo impacto de experiências traumáticas estão os medos específicos, que se tornam condicionados a qualquer “dica” do ambiente semelhante ao trauma.

Transtorno de Estresse Pós-traumático

Os traumas psicológicos podem afetar a qualidade de vida com grande expressão, caracterizando o TEPT, uma desordem psíquica precipitada por um ou mais eventos estressores de magnitude psicológica ao indivíduo. O TEPT é considerado como um transtorno de ansiedade, cuja etiologia (causa) é tida como multi-fatorial. Fatores genéticos, socioculturais, tipo de personalidade e eventos de vida (dificuldades financeiras, morte súbita de entes queridos, demissão, divórcio) estão envolvidos no surgimento dos transtornos ansiosos.

Recordações aflitivas, revivescência do trauma (pesadelos, pensa- mentos intrusivos/indesejados, flashbacks recorrentes de memórias do trauma e sentimentos incontroláveis), esquiva/entorpecimento emocional (distanciamento afetivo, anestesia emocional) e hiperestimulação autonômica (irritabilidade, insônia, hipervigilância), entre outros sintomas, podem ser indicadores de TEPT.

Esse conceito de transtorno e estresse surgiu em 1980, com base nos estudos feitos com veteranos de guerra e sobreviventes civis, e foi publicado na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico para Transtornos Mentais, da Associação Psiquiátrica Americana. No século XIX, diversos psicólogos, psiquiatras e neurologistas já reconheciam os sintomas característicos do atual TEPT, mas foi somente a partir da classificação internacional norte-americana que se conseguiu unificar o diagnóstico.

Porque os sintomas que originalmente levaram à formulação do atual diagnóstico do TEPT foram observados em soldados e civis com experiências avassaladoras de guerra, ênfase foi dada aos acontecimentos excepcionais de confronto com a morte. A noção de traumatização de guerra foi alargada a outros eventos de importante magnitude, tais como catástrofes, agressões físicas, estupros, espancamento de filhos e abusos sexuais. Contudo, os acontecimentos que podem provocar o TEPT são significativamente mais numerosos.

Estudos têm mostrado que o TEPT pode emergir de eventos como parto, aborto, ataque cardíaco, hospitalização seguida a ressuscitação, amputações, câncer, AIDS, perda de entes queridos, separação conjugal, entre outros episódios traumáticos, porém não catastróficos. Além disso, as pessoas que experimentam períodos prolongados de angústia podem igualmente desenvolver a síndrome pós-traumática, sem que um evento particular tenha ocorrido.

Uma série de condições estressoras pode favorecer o acúmulo de resíduos capazes de afetar o equilíbrio psíquico de indivíduos que passam a manifestar sintomas pós-traumáticos descritos no TEPT, sem que um evento traumático tenha, de fato, ocorrido. A existência do Critério A1 (experiência e/ou testemunho de evento traumático que ameaça a vida) não é, portanto, condição indispensável para os sintomas do TEPT emergirem.

Alguns casos em que um evento objetivo não ocorre e os sintomas pós-trauma se manifestam podem fazer interface com o quadro que chamamos de Burnout (combustão completa), que se dá após um período de esforço excessivo com intervalos insuficientes para recuperação. O Burnout pode ser decorrente de estresse profissional contínuo e/ ou exaustão emocional, levando à avaliação negativa de si mesmo, à depressão e à insensibilidade com relação a quase tudo e todos.

Transtorno de Estresse Pós-traumático

É realmente difícil prever todos os acontecimentos que pode- riam causar o TEPT, especialmente porque os aspectos subjetivos (Critério A2: experiência subjetiva de desamparo, medo, horror) contam decisivamente para a configuração do trauma tanto quan- to os aspectos objetivos. A angústia profunda, a sensação de estar preso, a perda de controle, o colapso das crenças básicas, a percepção de que a vida está em perigo e a integridade física (objetiva ou subjetivamente) é ameaçada, bem como o desamparo, são pistas para um possível diagnóstico do TEPT. Além disso, a descrição “pura” do DSM-IV, que agrupar e experiência traumática, anestesia emocional e hiperestimulação autonômica, é rara na expressão crônica de indivíduos com traumas psicológicos.
Os critérios diagnósticos DSM-IV a seguir são usados para identificação de TEPT2.

Exposição a um evento traumático em que os seguintes fatos ocorreram:

1. Vivenciou, testemunhou ou confrontou-se com um ou mais eventos que envolveram óbito ou ameaça de morte ou sério ferimento, ou ameaça à sua integridade física ou de terceiros.
2. A sua resposta deve implicar medo intenso, impotência ou horror. Observação: em crianças, a resposta manifestada pode expressar comportamento desorganizado ou agitado.

Lembrança constante do evento traumático por meio de uma ou mais das manifestações a seguir:

1. Memórias aflitivas recorrentes e intrusivas a respeito do acontecimento, incluindo imagens, pensamentos e percepções. Observação: em crianças, podem ocorrer brincadeiras repetitivas, nas quais o tema ou aspectos do trauma são expressados.
2. Sonhos aflitivos recorrentes, durante os quais o evento estressor é reencenado. Observação: em crianças, pode haver sonhos assustadores sem conteúdo inteligível.
3. Estados dissociativos (desagregados) que duram de alguns segundos a várias horas, ou mesmo dias, durante os quais o indivíduo se comporta como se o evento traumático es- tivesse se repetindo. Incluem ilusões, alucinações e episódios dissociativos com alteração do estado de consciência (como aqueles que ocorrem ao despertar ou em estado de embriaguez).
4. Sofrimento psicológico intenso sempre que há exposição a eventos ativadores que lembram ou simbolizam um aspecto do evento traumático.
5. Reação fisiológica sempre que há exposição a eventos ativadores que lembram ou simbolizam um aspecto do evento traumático.

Afastamento persistente de estímulos associados ao trauma e diminuição da responsividade geral em relação ao mundo externo. São caracterizados por três ou mais dos seguintes comportamentos:

1. Esforços deliberados no sentido de evitar pensamentos, sentimentos ou conversas sobre o evento estressor.
2. Desviar-se de atividades, situações, lugares e pessoas que provoquem recordações do episódio traumático.
3. Incapacidade de lembrar (amnésia) um aspecto importante do ocorrido.
4. Diminuição do interesse ou da participação em atividades anteriormente prazerosas.
5. Sentimento de deslocamento, inadequação ou estranha- mento em relação às outras pessoas.
6. Redução significativa da capacidade de manifestar emoções (especialmente aquelas associadas à intimidade, ternura e sexualidade).
7. Sensação de futuro abreviado (por exemplo, o indivíduo não espera ter carreira, casamento, filhos ou um tempo normal de vida).
Persistência de sintomas de excitação aumentada (não exis- tentes antes do trauma), evidenciada por dois ou mais dos seguintes sinais:
1. Dificuldade de conciliar ou manter o sono, possivelmente devido a pesadelos recorrentes durante os quais o evento traumático é revivido.
2. Irritabilidade ou ataques de raiva.
3. Dificuldade de concentrar-se ou completar tarefas.
4. Hipervigilância.
5. Resposta de sobressalto exagerada. Significativa perturbação no desempenho social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Especificadores dos tipos de transtorno de estresse pós-traumático

São três os principais tipos de TEPT: agudo (duração dos sinto- mas inferior a 3 meses); crônico (continuidade dos sintomas por mais de 3 meses); com manifestação tardia (o início dos sintomas se dá 6 meses – ou mais tempo – após a ocorrência do evento estressor).