Pode-se dizer que há traumas piores que outros? Quais seriam?

Costumo ouvir dos pacientes na primeira sessão de psicoterapia que o sofrimento que eles vivenciam é o pior e o mais doloroso, e existe uma razão para isso. Um evento estressor, quando traumático, torna-se pelo menos temporariamente indescritível. É como se as reciprocidades neurais do aparelho psíquico estivessem impedidas de reconhecer e transpor do nível da sensação e da percepção para o registro do simbólico, do verbal, do acontecimento traumático. O trauma fica alheio ao sentido, à representação, às cadeias associativas com outras memórias e, por isso, se repete como excitações fragmentadas, pensamentos intrusivos, pesadelos, acusando, assim, sua ainda permanente indescritibilidade. Portanto, a caracterização de um evento como traumático depende também do processamento perceptual do indivíduo, que é influenciado sensivelmente pela subjetividade. Em outras palavras, não é verdade que uma pessoa que amputou uma falange sofra menos que aquela que amputou as duas pernas. Ortopedistas, fisiatras e fisioterapeutas, que trabalham com reabilitação, conhecem bem o dimensionamento subjetivo que os pacientes atribuem aos traumas físicos e as respectivas implicações nos processos de recuperação. Muitas vezes, a disposição e o humor são variáveis que influenciam significativamente a continuidade ou a abreviação do sofrimento.

Trecho de entrevista concedida ao O site Abílio Diniz ((http://abiliodiniz.uol.com.br/abilio-diniz.htm))