Pesquisa da Unifesp apresenta estudos radiológicos que comprovam a eficácia da psicoterapia no cérebro de policiais com estresse pós-traumático

O estudo enfatizou a importância da brevidade do atendimento psicológico especializado.

A maioria das pessoas sofreu ou sofrerá um evento potencialmente traumático como perdas, acidentes, doenças, etc e há uma forte relação entre trauma psicológico e o desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que contempla o aparecimento de três grupos de sintomas: revivecência do trauma (memórias traumáticas, pesadelos); evitação/entorpecimento (distância afetiva, anestesia emocional) e hiperestimulação autonômica (estado de alerta, irritabilidade, insônia).

A prevalência de eventos traumáticos pode alcançar 50-90%, mas a prevalência de TEPT na população em geral é em torno de 8%, enquanto o TEPT parcial está estimado em aproximadamente 30%, segundo informações científicas.

O impacto do crime tem se tornado um problema de saúde pública, particularmente, nas áreas urbanas, e é agora uma das mais frequentes causas de morte na população em diversos países. A Polícia Militar do Estado de São Paulo sofreu um ataque sem precedentes por parte de uma organização criminosa no período de12 a23 de maio de 2006. Grande número de policiais foi morto a tiros e muitos foram afetados por traumas psicológicos ao passo que outros permaneceram sem sintomas pós-traumáticos.

Há relevantes diferenças qualitativas em como as pessoas traumatizadas e não traumatizadas processam e categorizam suas experiências. Pela primeira vez foram avaliados os mecanismos neurais relacionados à resiliência espontânea e à superação do trauma no processo psicoterápico. O estudo utilizou a Ressonância Magnética Funcional para examinar os policiais resilientes e os acometidos do TEPT submetidos à Terapia de Exposição e Reestruturação Cognitiva. 

Pesquisados

Dos 97 policiais envolvidos nos ataques e apresentados pelo Centro de Assistência Social e Jurídica da Polícia Militar, 36 foram selecionados para o estudo. Os policiais estudados não apresentavam comorbidades (duas doenças distintas em um mesmo indivíduo) e tinham exatamente a mesma idade da memória traumática, que desencadeou o trauma para alguns, mas não para outros. Foi monitorada a frequência cardíaca e a expressão do cortisol salivar antes do estudo e durante o exame de ressonância magnética funcional para assegurar a homogeneidade da amostra. Somente os voluntários que mostraram hipervigilância (ansiedade) foram selecionados para o estudo.

Resultados

O estudo mostrou os mecanismos neurais de um conjunto homogêneo de indivíduos traumatizados em relação ao enfrentamento (Grupo 1 submetido a psicoterapia), continuidade (Grupo 2 não submetido a psicoterapia), e resiliência espontânea ao trauma (Grupo 3). A maior atividade do córtex médio préfrontal (envolvido na classificação dos eventos) e a menor atividade da amígdala (envolvida na expressão do medo) foram observadas tanto nos policiais com resiliência espontânea como nos policiais submetidos à psicoterapia. Comparando os grupos depois da psicoterapia, ficou clara a importância da brevidade do atendimento psicológico especializado, uma vez que os indivíduos submetidos à psicoterapia (grupo 1) não mais preenchiam os critérios do TEPT enquanto os indivíduos não submetidos à psicoterapia pioraram os sintomas do TEPT (Grupo 2). As pessoas que inicialmente configuram o TEPT parcial podem desenvolver o TEPT crônico, que apresenta risco três vezes maior para emersão de comorbidades como Transtorno Depressivo, Transtorno Somatoforme, Trantorno do Pânico, abuso de substâncias, etc.

Ao contrário do que os autores esperavam, o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) se mostrou em níveis normais nos policiais com TEPT, tal como nos policiais resilientes (sem sintomas). A cronificação do trauma em indivíduos com TEPT está associada à menor expressão de cortisol decorrente da desregulação do sistema nervoso autônomo, o que ressalta a importância do apoio psicoterápico especializado logo após a ocorrência traumática para que as respostas autonômicas não sejam danificadas.

Integrar os fragmentos emocionais de memórias traumáticas em narrativas terapêuticas estruturadas é um dos principais desafios para as psicoterapias aplicadas a vítimas de traumas. Os policias submetidos à psicoterapia mostraram pontuações mais elevadas da narrativa e diminuíram a expressão emocional do trauma enquanto os não submetidos à psicoterapia mantiveram a pontuação baixa para narrativa e elevadas expressões emocionais do trauma. O estudo mostrou que à medida que a classificação cognitiva (narrativa) se desenvolve as expressões emocionais fragmentadas (característica do trauma) diminuem.

Na prática, a psicoterapia favoreceu o desenvolvimento da resiliência e ajudou a reduzir significativamente os sintomas pós-traumáticos. Julio Peres, psicólogo clínico e autor do estudo associado ao Pós-doutoradoem Radiologia Clínicapela Unifesp, enfatiza que a resiliência pode ser adquirida e os conhecimentos desse processo não são restritos ao momento: beneficiam também outros domínios da vida ao longo do tempo. O sofrimento traumático pode ser de fato, parte de uma história de superação. E as características de resiliência mais importantes foram a autoeficácia (confiança em si), a empatia, otimismo, e a religiosidade.

Três Universidades estiveram envolvidas no estudo (UNIFESP, Faculdade de Ciências Médicas Santa Casa de São Paulo e Universidade Federal de Juiz de Fora) além da Polícia Militar do Estado de São Paulo. O artigo Police officers under attack: Resilience implications of an fMRI study foi publicado nesta semana na Edição Especial de Comemoração dos 50 anos do Journal of Psychiatric Research.

Entrevista concedida à Rosângela Manchon.