Personalidade e Trauma

Personalidade e Trauma: a experiência reconstruída como uma memória que provoca tristeza ou qualquer outra emoção reflete as genuínas características psicológicas e traços de personalidade do indivíduo. A busca de compreender as respostas ao trauma está também voltada para a contribuição dos traços de personalidade.

Personalidade e Trauma

Podem-se identificar, entre os integrantes de uma população, aqueles indivíduos que apresentam maior propensão ao desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O conhecimento dos fatores que compõem a personalidade, para que possamos então trabalhar terapeuticamente as pessoas que mantêm o sofrimento traumático, é um desejo natural dos pesquisadores da área da saúde mental.

Abordar essa questão desafiadora é uma necessidade: não há como se falar em Psicologia ou Psiquiatria sem falar sobre a personalidade, e esse tema não pode ser deixado à margem da prática clínica. A visão do homem e da natureza que o constitui são esteios que norteiam as intervenções terapêuticas.

A compreensão ampla da manifestação do sofrimento humano certamente influenciará terapêuticas mais eficazes. Portanto, pesquisas sobre a natureza da personalidade são justificáveis e imprescindíveis aos profissionais que se ocupam de tratar a dor psíquica, em sua miríade de expressões.

Voltando às raízes etimológicas, o termo personalidade deriva do grego persona, que significa máscara utilizada na Grécia para designar o “personagem” representado pelos atores no palco.

Estendendo a compreensão sobre a origem das palavras, “sinceridade” significa “sem cera”. A cera era justamente utilizada para confecção das antigas máscaras.

Contudo, definir personalidade é até hoje um desafio, uma vez que a ciência ainda não esclareceu conclusivamente o mosaico de variáveis e suas participações interativas na constituição da singularidade de nossas identidades. A unicidade do indivíduo, isto é, aquilo que o distingue de todos os outros, é recorrente na maioria das teorias postuladas sobre a personalidade.

Mesmo sem a compreensão conclusiva dos elementos que determinam a personalidade, o modelo tridimensional, influenciado por fatores biopsicossociais, é aceito até agora por boa parte dos profissionais da saúde. Abordarei parte relevante das contribuições efetivas da Neurociência e de outras linhas de pesquisa relativas ao conhecimento da personalidade. Discutirei os dados que considero pertinentes ao amadurecimento, tanto quanto pos-sível, da demarcação de referências sobre a personalidade e de como podemos favorecer seu desenvolvimento em indivíduos traumatizados.

Em geral, as múltiplas concepções de homem embasadas em distintos pressupostos epistemológicos espelham referenciais sócio-histórico-culturais, muitas vezes distantes dos achados científicos. Por um lado, a Ciência não trouxe ainda esclarecimentos definitivos a respeito das variáveis que constituem a personalidade e, assim sendo, diferentes hipóteses e abordagens terapêuticas são bem-vindas.

Por outro lado, tal multiplicidade – teórica, metodológica e prática – encontrada na Psicologia e na Psiquiatria pode ser questionada quanto à cientificidade das abordagens adotadas, pois a natureza humana em si é a mesma, a despeito das diversas definições encontradas nas teorias.

Reciprocidades Funcionais Anatômicas

A ideia de existirem relações funcionais/anatômicas no encéfalo, ainda hipotética em meados do século XIX, começou a se fortalecer com investigações controladas como as de Broca (1861), Jackson (1931) e Penfield (1953).

Nesse período, a maioria das informações disponíveis sobre o cérebro humano procedeu da observação de indivíduos que apresentavam lesões com prejuízo de funções e comportamentos. As limitações de tal conhecimento influenciaram a remoção de certas regiões do cérebro como estratégias de trata- mento de indivíduos com desordens neurológicas.

O famoso caso Phineas Gage, sobrevivente de um grave acidente que resultou na perda de uma porção frontal do cérebro, em 1848, fortaleceu a hipótese de que o cérebro determina os comportamentos.

A parte pré-frontal do cérebro que perdera passou a ser associada às funções mentais e emocionais alteradas. De funcionário tímido, cordato e responsável, Gage passou a ser irresponsável em relação à assiduidade ao trabalho, namorador, arrojado em seu tempera- mento com brigas e confusões interpessoais frequentes.

John Harlow, o médico que o atendeu, considerou em seu artigo “Recuperação da passagem de uma barra de ferro pela cabeça” que o equilíbrio entre as faculdades intelectuais e as propensões animais fora destruído. A despeito das falhas e imprecisões do relato original, vários neurocientistas referem que o caso clínico de Gage foi o início histórico dos estudos relativos às bases biológicas do com- portamento.

Assim, o olhar científico sobre a personalidade foi em grande parte voltado aos casos clínicos de pacientes com lesões cerebrais, fortalecendo a hipótese de as funções encefálicas serem responsáveis pela origem dos comportamentos. Curiosamente, as alterações surpreendentes na personalidade e no humor descritas na época também hoje são observadas em algumas pessoas que se confrontam com a morte em acidentes graves, porém sem perda de massa encefálica.

O confronto com a morte pode também modificar radicalmente comportamentos e traços de personalidade. Tenho alguns exemplos em minha clínica, concordantes com a literatura, de pessoas cordatas e tímidas que revalorizaram a vida após a iminência da morte e não mais se submeteram a situações de passividade que as subjugavam.

É possível que a experiência traumática tenha também influenciado o distinto olhar de Gage em relação ao mundo e aos respectivos comportamentos.