O que fazer quando as pessoas manifestam sintomas e comportamentos sugestivos de traumas sem se lembrarem dos eventos relacionados ao sofrimento?

Realmente, muitos pacientes com sintomas de TEPT, Fobias Específicas, Transtorno do Pânico, entre outros transtornos ansiosos, além de dificuldades específicas de relacionamento (filhos, cônjuge, etnias, etc.) não lembram os eventos desencadeadores de suas queixas. Outras especialidades médicas também observam a “força” do psiquismo em certas doenças, como os transtornos somatoformes (antiga mente chamadas de doenças psicossomáticas) influenciadas por memórias inconscientes como por exemplo: suor excessivo (hiperidrose), urticária crônica, prurido generalizado, pelada (alopecia areata), escoriações compulsivas, arrancamento de cabelos (tricotilomania), mordedura da pele dos lábios (queilofagia) ou da pele dos dedos (cutisfagia), roeção de unhas (onicofagia), psoríase, dermatite seborreica, vitiligo entre outras. Nesses casos, o acesso do paciente à atribuição de significados sobre a origem de suas queixas também pode acontecer na psicoterapia. Elaborada pela psiquiatra Maria Julia Peres a partir de1980, aTerapia Reestruturativa Vivencial Peres (TRVP) consiste em um processo de autorresolução de conflitos e tem trazido resultados terapêuticos eficientes para aqueles que apresentam sintomas, sofrimento subjetivo, padrões disfuncionais de comportamento e não conseguem explicar seus porquês ou suas raízes. Foi um privilégio para mim, como filho e psicólogo, acompanhar a formulação da TRVP e, em seguida, os resultados satisfatórios com os pacientes. A TRVP associa fundamentos da terapia cognitiva comportamental ao uso do estado modificado de consciência (EMC). O paciente é levado a um relaxamento físico e mental com base na respiração diafragmática, para conexão com conteúdos inconscientes que expliquem as causas de seu sofrimento. Quando tal significado é estabelecido, promove-se a reestruturação cognitiva, isto é, ressignifica-se terapeuticamente o trauma com a busca de aprendizados para o que foi vivenciado. Observa-se que os conteúdos, simbólicos ou factuais, que surgem em EMC, estão diretamente relacionados às angústias e dificuldades atuais do indivíduo. As imagens mentais aparecem com a atenuação do crivo das resistências manifestadas no raciocínio lógico durante o estado de vigília. Os conteúdos vivenciados representam uma verdade emocional subjetiva do indivíduo. São observadas vivências de infância, adolescência, vida adulta, parto, vida intra-uterina, situações simbólicas ou eventos que o indivíduo percebe como de vidas pregressas. O terapeuta pergunta ao paciente quais as relações entre os conteúdos vivenciados com as suas dificuldades e sintomas atuais, promovendo a conscientização das dinâmicas e diálogos internos mantenedores dos padrões disfuncionais de sentimento, pensamento e comportamento. Uma frase que sintetize o aprendizado terapêutico de cada vivência é elaborada pelo paciente e as novas dinâmicas mentais e de comportamento são exercitadas e fortalecidas gradualmente até que os sintomas sejam desarticulados.

Trecho de entrevista concedida à FOLHA ESPÍRITA