Como um acontecimento se transforma em Trauma?

Como um acontecimento se transforma em Trauma? Vamos entender este processo.

A maior parte das reações do organismo perante uma alteração do meio ambiente, mesmo aquelas que causam dor, mal-estar ou sofrimento, têm um princípio adaptativo de proteção e sobrevivência. Por exemplo, a tosse, o vômito e a dor são defesas do organismo: ajudam a expelir um material que se encontra numa via errada, ou um alimento nocivo, ou um corpo estranho como farpa, que poderiam prejudicar o organismo.

A ansiedade é um estado emocional comum e provavelmente tenha sido selecionada como um importante fator para a pre servação da espécie humana. O estado ansioso é definido como um comporta mento de alterações físicas (taquicardia, sudorese, hiperventilação, aumento da pressão arterial) e psíquicas (apreensão, inquietude, alerta). Assim como a dor evoluiu para nos proteger de danos imediatos ou futuros, a ansiedade talvez tenha evoluído para nos proteger contra futuros perigos ou outros tipos de ameaças.

Como um acontecimento se transforma em Trauma?
Os bebês apresentam limiares menores de tolerância a estressores ambientais (níveis de ruídos, frio, calor etc.) e são mais vulneráveis aos traumas psicológicos (às vezes não lembrados na vida adulta).

De fato, a ansiedade pode variar em intensidade e expressão conforme a importância que se atribui ao risco iminente. Quanto mais ameaçador um evento, maior seria a intensidade de expressão da ansiedade. Como um sinalizador antecipatório de possíveis ameaças ou mesmo diante da ameaça, a ansiedade altera de forma vantajosa o pensamento, a fisiologia e o comportamento humano com ajustes para sobrevivência.

Nossos ancestrais provavelmente tenham antecipado riscos reais durante a caça e a vida diária, exercendo algum controle sobre a incidência de ameaças letais por intermédio da ansiedade. É possível que o superdimensionamento das ameaças tenha sido selecionado como recurso de preservação por estabelecer margens de segurança em relação à avaliação dos perigos reais. Apesar de a ansiedade estar presente em todos os seres humanos, alguns indivíduos a manifestam com intensidade e duração exacerbadas, impedindo a continuidade equilibrada da vida. É o caso de boa parte das pessoas que sofreram traumas: um acontecimento se transforma em trauma quando o “sistema é sobrecarregado cronicamente”.

Costumo dizer aos meus pacientes com TEPT, nas primeiras sessões, que “o seu sistema nervoso trabalhou ‘bem demais’ com o objetivo de proteção e assim foi sobrecarregado…”. Prossigo, dizendo: “agora vamos aliviar o sistema ensinando a ‘esse amigo’ que ele pode ser mais bem aproveitado de outras maneiras”.

Números assustadores
Segundo dados do IBGE (2003), do total de indivíduos que integram a população brasileira (176.876.251), 40.114.051 (22,7%) residem em capitais, onde a incidência de eventos estressores ligados à violência urbana, conforme ocorrências registradas pelas polícias civis, é significativamente maior. As principais ocorrências potencialmente
traumáticas notificadas foram: tentativa de homicídio, lesão corporal, estupro, atentado violento ao pudor, sequestro, roubo e furto.

A probabilidade de o TEPT ser desenvolvido está diretamente relacionada a uma série de fatores, entre eles: características específicas do acontecimento, grau de exposição (tempo ou vezes em que a situação ocorreu), fatores socioeconômicos, qualidade do apoio social recebido, fatores biológicos (como a diminuição do volume hipocampal), traços de personalidade e percepção do indivíduo perante o evento. Enfatizo que a maneira como as pessoas processam a situação estressora após sua ocorrência é determinante para que o trauma seja configurado ou não.

Infelizmente, é muito comum os pacientes com trauma psicológico serem atendidos em pronto-socorros e ambulatórios de clínica médica apenas com queixas somáticas (sintomas físicos). Podem ainda ir a um neurologista, queixando-se de dor de cabeça; a um gastroenterologista, por conta de uma gastrite, ou a um cardiologista, devido a palpitações. Com frequência, tais indivíduos são subdiagnosticados pela desinformação sobre o TEPT. Se as causas não forem tratadas nesses casos, as queixas em geral se mantêm ou pode haver deslocamento de sintomas. Por isso, durante uma avaliação clínica, é necessário perguntar de modo rotineiro às pessoas se sofreram situações traumáticas anteriores aos sintomas que apresentam.

O trauma psicológico pode ser especialmente grave ou duradouro quando o agente causador é humano: ataque sexual ou físico, assalto à mão armada, roubo, sequestro, violência moral e/ou física, atentado terrorista, confinamento como prisioneiro(a) de guerra ou em campo de concentração, desastres provocados pelo homem, acidentes automobilísticos graves, ser tomado(a) como refém, tortura etc.

Quero ilustrar tal situação com o caso clínico de um paciente que sofreu assalto traumático com a família, em casa, por quatro horas. Os assaltantes ameaçaram fi lha e esposa enquanto exigiam mais e mais dinheiro. O paciente vivenciou extrema ansiedade diante da situação. Depois de alguns dias, passou a apresentar “dores de barriga” que perduraram por meses, até que procurou um gastroenterologista. O profissional o medicou e as dores cessaram. Pouco tempo depois, apresentou crises de asma com espasmos brônquicos (tosses até perder o ar) com causas idiopáticas (desconhecidas); o paciente procurou outro médico, agora alergista, e nenhum fator alérgico foi detectado como causa das crises. O máximo que conseguiu foi controlar paliativamente as crises agudas com dilatadores dos brônquios. Contudo, as crises asmáticas e o padrão de ansiedade pós-assalto continuavam depois de 8 meses e então esse paciente chegou à psicoterapia, preenchendo todos os critérios de TEPT.

Ficou evidente o deslocamento do sintoma desse paciente: inicialmente somatizou uma infl amação gástrica e, em seguida, com o aparente bloqueio dessa via pelo tratamento gastroenterológico, somatizou uma inflamação nos brônquios. Atenuado o padrão de hiperestimulação e ansiedade com a psicoterapia, as crises asmáticas também se atenuaram. Ao final do processo, o paciente não apresentava mais o quadro asmático ou sintoma soma toforme (característico de origem psicológica), tampouco preenchia os critérios do TEPT. Sintoma pode ser entendido como um sinal. Imagine que os nervos aferentes e eferentes, que lhe permitem sentir dor ao encostar a mão no fogo, fossem cortados. Você perderia a mão por não perceber o sinal de perigo iminente. O sintoma, metaforicamente, é um sinalizador e permite a checagem e a remoção das causas que o provocam e ameaçam a integridade da vida. Resumindo, o sintoma é um sinal de que algo não vai bem e reflete causas às vezes não aparentes. Por exemplo, o sintoma febre pode ser provocado por uma infecção na garganta. Até que a infecção específica seja tratada, o sintoma permanecerá. Por isso, existem vários tipos de antibióticos, com diferentes espectros de atuação. 

Traumas psicológicos podem ser causas de sintomas somáticos e, da mesma forma, o sintoma permanecerá, se ampliará ou se deslocará até que a causa psicológica seja tratada. Conhecer os sintomas frequentemente apresentados após situações traumáticas abreviará a chegada ao tratamento adequado, evitando os riscos de cronicidade.