Surpresa da vez

Se você acha que coragem é apenas impulso emocional e ausência de medo, vale a pena conhecer as últimas pesquisas da área da neurobiologia sobre esse tema. E um dos grandes estudiosos do assunto é justamente um neurocientista e psicólogo clínico brasileiro, o doutor Julio Peres, que é doutor em neurociências pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado no Centro de Espiritualidade e Mente da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Na sua profissão, ele se especializou na superação de traumas – isto é, no exercício de estimular a coragem em seus pacientes e a ensiná-los a superar seus medos. A novidade no assunto é que ele fez um mapeamento de como se dá essa superação por meio de neuroimagens que mostram os efeitos neurobiológicos da psicoterapia em pessoas traumatizadas. Isto é, hoje é possível saber quais áreas do cérebro são acionadas quando uma pessoa tem a coragem de ultrapassar seus temores. E você vai cair de costas: a principal área estimulada é o córtex pré-frontal (envolvido com o planejamento) e não a amígdala, uma pequena estrutura cerebral correlacionada com o medo e impulso emocional. Se a crença popular diz que a coragem é uma emoção nascida do coração, a Ciência diz que ela é também resultado do raciocínio e capacidade de julgamento das variáveis disponíveis.

Por isso, o doutor Julio Peres prefere usar o termo “ato corajoso” do que “coragem”, a expressão genérica. “O ato corajoso é resultado de um julgamento consciente. E julgar significa ponderar e avaliar os caminhos possíveis diante de uma determinada situação. Um ato corajoso envolve capacidade de análise, equilíbrio e responsabilidade”. Ou seja, se realmente vou ultrapassar um limite, o faço conscientemente, e não apenas no impulso. Nessa concepção, a coragem tem muito mais peso e importância. “Esse tipo de coragem sem muita consciência pode até existir, por exemplo, num ato resultante de um reflexo instantâneo que salvou alguém de um atropelamento: é simplesmente uma presença de espírito, um expediente que deu certo, como podia não ter dado”.

Para ele, a coragem mais profunda é um processo de conscientização que tem a ver com ousadia, sim, mas igualmente com conhecimento, determinação e capacidade de análise das variáveis. Ou seja, a coragem é ativa e não reativa. “E, nesse sentido, todos nós somos corajosos. Se chegamos na idade adulta, é porque optamos por milhares de atos conscientes e cheios de coragem que permitiram nossa sobrevivência. A coragem é um atributo humano e não uma qualidade de poucos. Somos todos heróis e vencedores, não porque fizemos extraordinários gestos grandiosos, mas simplesmente porque estamos vivos.”

Acontece que a nossa memória tem o hábito de registrar com muito mais força e precisão as lembranças dolorosas – uma simples estratégia de sobrevivência para evitar que gente caia no mesmo buraco. E aí, por nos recordar só dos nossos fracassos, nos acreditamos medrosos, covardes, impotentes. “E como há toda uma cultura que estimula o ato heróico, temos muitas vezes vergonha dos supostos insucessos”. Por isso, um dos primeiros passos no consultório do dr. Julio Peres é procurar se lembrar de alguma superação de limites feita no passado. E vale a vez que você teve o peito de tirar as rodinhas da bicicleta.

Outros passos dessa estrada

Alguém aí tem idéia da etimologia da palavra covarde? Vem do francês antigo, coart, hoje couard, ou cauda arqueada. O popular rabo entre as pernas. A gente leva uma bordoada daquelas da vida e fica assim, igual a um cachorrinho, com o focinho baixo e o rabo enfiado no meio das pernas. E com um baita medo de ousar de novo. Vai que lá vem bordoada… É assim que estagnamos. “Procurar ajuda já é o primeiro ato de coragem. Conversar, se expor, desabafar. Acolher esse sentimento de não adequação, esse temor”, continua o dr. Julio Peres. “Um trauma nos congela no tempo: não conseguimos sair daquela situação e dar o primeiro passo para ultrapassá-la”. Existem vários recursos terapêuticos para isso. Um deles, por exemplo, envolve os sonhos. Mas de 60% das pessoas com traumas tem pesadelos. “Por meio da imaginação ativa, podemos lembrá-los no consultório, mas dando um desfecho diferente para eles”, conta o psicólogo.

Outro recurso é a exposição à situação, passo a passo. No caso de alguém que teve um acidente e tem medo de dirigir de novo, por exemplo, a situação pode ser reconstruída no consultório, mas com apoio psicológico. E na vida real, a pessoa é estimulada a voltar dirigir: primeiro como passageira, ao lado de um motorista que ela confie, depois tomando a direção, mas ainda com a pessoa de confiança ao lado. E depois, num curto trecho, sozinha. Eliminam-se também as mesmas condições do dia do acidente, como, por exemplo, um clima chuvoso, baixa luminosidade, estrada ruim, alta velocidade. Isto é, incorporam-se outras possibilidades no cenário. “Funciona”, diz o doutor Julio Peres. “A pessoa ainda pode estar temerosa, mas ela terá a coragem de conviver com o temor, aceitá-lo, para então dialogar com o medo, respirar fundo e ultrapassá-lo”. E a lição de ouro dessa história é: não existe coragem sem medo. Se não tiver medo, não é coragem.

 Entrevista com o Dr. Julio Peres para Revista Vida Simples – 2009