Estresse ou Stress?

Estresse ou Stress? Algumas palavras que traduzem conceitos psicológicos e médicos são usadas pelo senso comum para designar significados equivoca- dos, distintos dos originais. Por exemplo, ouvimos com frequência “estou neurótico” para expressar “estou nervoso” ou “surtei” para comunicar “exagerei emocionalmente”.

O mesmo acontece com a palavra stress, derivada de distress pela perda dos fonemas iniciais, empregada comumente com distorções conceituais.

Estresse ou Stress?

Estresse ou Stress e suas diferentes origens

Stress apresenta algumas diferentes raízes etimológicas. O termo anglo-normando distress, correspondente ao termo francês destrece (século XII) significa estreiteza. As raízes do latim districtus “importunado, ocupado” e strictus “apertar, comprimir” foram incorporadas à medicina a partir dos trabalhos de Walter Cannon (1871-1945) e de Hans Selye (1907-1982).

Estresse (também oriunda do latim strictus), adotado pelo francês, enfatizou o significado estreitamento, que por sua vez vem deestrição: pressão interna e externa, que influi nas síndromes de adaptação.

O médico austríaco Hans Selye empregou em 1936, como termo médico, a palavra inglesa stress para definir os mecanismos neuroendócrinos adaptativos do organismo a estímulos exteriores, sejam positivos ou negativos. Em 1950, Selye publicou a obra que o consagrou, na qual expôs a síndrome geral de adaptação.

Apesar de o termo inicialmente ser definido como uma resposta necessária e saudável, hoje o conceito está associado à sobrecarga e ao prejuízo da qualidade de vida. A cultura metropolitana cada vez mais estimula o sobrepeso do alto desempenho, da competitividade e de metas desafiadoras, às vezes impossíveis de serem alcançadas.

Esse contexto de excessiva competitividade favorece tensões, conflitos, depreciação do relacionamento interpessoal, além de baixa autoestima e solidão, que certamente influenciaram a contaminação do termo original.

Observo também algumas imprecisões em alguns artigos científicos sobre trauma psicológico. Às vezes o termo “estresse” é usado como o causador de um transtorno ou como resposta ao agente traumático externo. Na realidade, o evento estressor pode provocar, entre outros fatores, o transtorno, e o estresse é uma res- posta que busca adaptação ao evento estressor.

Diante de um evento ameaçador, reagimos adaptativamente em busca da preservação da vida. Tais respostas geradas tendem a atenuar com a ausência do evento estressor. Resumindo, a reação do indivíduo e o evento potencialmente estressor são as duas condições necessárias para que o estresse aconteça.

Contudo, as mesmas respostas agudas de sobrevivência podem continuar por mais de seis meses e, se ocorrer tal cronicidade, o indivíduo pode ser diagnosticado como portador do TEPT.

Uma versão atual do termo está no dicionário da língua portuguesa Houaiss (2001), que traduziu a palavra stress por estresse, com o conceito de perturbação da homeostase (equilíbrio entre interior e exterior) que provoca no organismo a busca pela adaptação. Usarei esse significado para estresse e, assim, o TEPT será entendido como as dificuldades adaptativas apresentadas pelo indivíduo após a(s) ocorrência(s) traumática(s).