Superação e Ser Vencedor

1- O que é, do seu ponto de vista de psicólogo clínico e neurocientista, o conceito de uma pessoa vencedora?

Uma pessoa vencedora pode ser considerada resiliente. Vale esclarecer que a resiliência (capacidade de atravessar adversidades e construir o bem-estar) não é algo que simplesmente alguns têm e outros não, ou mesmo um “envelope de segurança” implacável para situações potencialmente traumáticas. A superação de adversidades é dinâmica, pode ser desenvolvida por indivíduos com traumas psicológicos e envolve vários fatores associados a confiança e a esperança como: (1) a motivação de encontrar sentido na vida diária; (2) a crença de que se pode influenciar o entorno e os resultados dos eventos; e (3) A opinião de que se pode aprender e crescer a partir das experiências positivas e negativas. A psicoterapia tem ajudado muitas pessoas a crescerem com base nos aprendizados adquiridos em suas experiências dolorosas. A superação ocorre quando uma aliança de aprendizado com o sofrimento é construída, favorecendo benefícios adicionais à qualidade de vida anterior à ocor­rência do trauma. Os conhecimentos adquiridos nesse processo não são restritos ao momento e beneficiarão também outros domínios da vida. Portanto, o sofrimento pode ser de fato apenas parte de uma história de superação.

2- Ser bem-sucedido em algo tem relação direta com superação de medos e traumas?

Ser bem-sucedido requer coragem, que tem em sua etimologia o significado “ato do coração”. O diálogo entre o medo e a coragem faz parte da vida de todos, e a despeito da crença de que uma condição exclui a outra permanecer predominante ao senso comum, a coragem pode ser fortalecida com a perseverança e o direcionamento da energia para fazer o certo. Diante da adversidade, a coragem e os resultados subsequentes, quando positivos, conferem uma autoimagem satisfatória de dignidade. O fator crucial ao desenvolvimento do bem-estar íntimo está em como os indivíduos percebem sua capacidade de investir seus recursos mentais, lidar com os eventos e controlar seus resultados. Por exemplo, os diálogos internos de autopiedade, incapacidade, insegurança, desamparo e autodepreciação podem realçar as emoções negativas e exacerbar o sofrimento. Por outro lado, as pessoas que cultivam, ou aprendem a cultivar diálogos internos de enfrentamento, procurando modificar o presente positivamente, constroem com maior facilidade o bem-estar.

3- Três dos meus seis personagens que vou citar na matéria como exemplo de vencedores têm em comum o fato de terem sido abandonados pelo pai quando crianças. O que, em tese, poderia ter sido ruim para o desenvolvimento deles, pode tê-los fortalecido?

De fato, a perda/afastamento de entes queridos assim como a fragmentação do núcleo familiar podem influenciar negativamente a vida de muitos indivíduos. Em contra-ponto ao que o filósofo Friedrich Nietzsche afirmou, “O que não mata, fortalece”, o trauma pode adoecer severamente grande número de pessoas ao invés de fortalecê-las. Contudo, a mente é ágil e em si, pode fazer do céu o inferno e do inferno o céu e por isso, precisa de orientação para que esta agilidade esteja a favor do bem-estar. Lembrar envolve a reconstrução de uma trama coerente por meio de fragmentos disponíveis tornando assim o passado maleável e flexível, com novas interpretações das recordações e re-explicações do que aconteceu. O fortalecimento/crescimento pós-trauma as pessoas que se submeteram a psicoterapia envolve geralmente 5 aprendizados, que possivelmente permearam a superação dos três personagens: (1) Abertura para novas experiências, interesses e objetivos de vida; (2) Apreciação e valorização da vida; (3) Melhor relação familiar e interpessoal permeada por gratidão, bondade e amor; (4) Desenvolvimento ou resgate da religiosidade/espiritualidade no dia-a-dia e; (5) Descoberta de força, coragem e perseverança para superação de adversidades. A superação de adversidades importantes e a construção do bem-estar consistente se relacionam também com o fortalecimento do caráter e o desenvolvimento das virtudes (coragem, justiça, temperança, sabedoria, paciência, amor e esperança).

4- O que o cérebro de um vencedor tem de diferente dos demais?

Conforme respondi anteriormente, as neurociências mostram que lembrar compreende a reconstrução de informações coerentes por meio de fragmentos disponíveis de modo que o conjunto faça sentido. Assim, o passado é flexível e modifica-se com novas interpretações das recordações e re-explicações do que aconteceu. Nossos estudos com neuroimagem mostraram o que acontece no cérebro das pessoas que aprenderam com seus sofrimentos e superaram. Novas classificações e traços de memória se formam substituindo as conexões neurais anteriores envolvidas com o sofrimento. Indivíduos que desenvolveram resiliência espontânea assim como aqueles submetidos à psicoterapia mostraram maior atividade do córtex médio préfrontal (envolvido na categorização e classificação das experiências) e menor atividade da amígdala esquerda (envolvida na expressão do medo/sofrimento). Essa evidência reforça a importância de re-classificar e aprender com a dificuldade em vez de sucumbir a ela. Diante das adversidades, podemos todos percorrer esse caminho.

Respostas do Dr. Julio Peres para ISTO É.