Quando presentear faz bem a saúde?

1) Muitas pessoas falam que a maior alegria é quando se dá um presente e não quando se recebe. Você concorda, por quê?

O estado subjetivo chamado de alegria abrange um conjunto dinâmico de vivências, como: momentos de prazer fugazes na vida diária (surpresa agradável, prazer sensorial ao tomar banho, almoçar, ouvir uma música, etc.); satisfação com a vida, prazer mais duradouro (envolvendo o relacionamento diário com família, trabalho e amigos) e satisfação com a vida, bem-estar perene (compreendendo estilo de vida, gratidão, motivação e contentamento íntimo, propósito e significado amplos para a vida). Portanto, são várias as possíveis manifestações humanas de afeto positivo e certamente quando observamos o bem-estar que propagamos em decorrência de nossos atos, nos sentimos tanto quanto ou mais alegres que as pessoas que recebem nossos presentes.

2) Qual a sensação do corpo de quem dá o presente? Por que é bom presentear? Podemos dizer que faz bem à saúde? Por quê?

O ato presentear não é uma experiência única e muitos aspectos, positivos ou negativos, podem envolver este comportamento. Por exemplo, vivemos sob fortes influências de consumo em um contexto cultural árido de significados para o sentido da vida. As novas tecnologias de entretenimento e a comercialização acelerada dos bens materiais disparam excitação, euforia e ansiedade, que ensombram a consciência dos valores essenciais à vida em harmonia. Novas “necessidades” são artificialmente criadas a cada dia, imbuídas da falsa promessa de felicidade. A cultura contemporânea do descartável incentiva comportamentos como a pressa e a obtenção imediata dos bens que, supostamente, trariam conforto e aplacariam a angústia do vazio, assim como a ausência de sentido para a existência. Por outro lado, o presentear pode sim fazer bem a saúde quando este gesto está alinhado aos votos genuínos de bem-estar daquele que receberá o presente.

3) Quais sinais produzidos pelo outro que podemos classificar como responsáveis por desencadear em nós a sensação de prazer de presentear?

O sorriso aberto é o primeiro deles e os sinais faciais são mundialmente reconhecidos: a boca abre-se com exposição dos dentes e da gengiva, as maçãs do rosto sobem e o olhar dirige-se em sentido ligeiramente ascendente. Os sinais de gratidão de quem recebe o presente também desencadeiam o bem-estar naquele que presenteia. Algumas culturas muito ensinam sobre a gratidão. Por exemplo, ao contrário da nossa prática de “boas maneiras”, a cultura Tibetana ensina as crianças a não abrirem o presente imediatamente ao ser recebido. A razão é simples: o que de fato tem valor é o ato de presentear e não o presente em si. Vale lembrar que estudos epidemiológicos sobre bem-estar e qualidade de vida mostraram alguns fatores interessantes, como: o suporte social (boa convivência com a família e os amigos) esteve fortemente relacionado à felicidade; voluntariado e caridade estiveram associados ao maior significado de vida e felicidade; as pessoas com autoestima elevada e que se sentem úteis (variáveis dependentes) são mais felizes; as pessoas que relatam com frequência o sentimento de gratidão têm maiores índices de afetos positivos e felicidade. Em suma, índices maiores de cooperatividade estiveram fortemente relacionados à felicidade e o ato de presentear pode estar diretamente relacionado à cooperação e solidariedade, preditivos do bem-estar consistente.

4) Como é produzida essa sensação de prazer? Quais os neurônios e substâncias químicas que fazem isso? Como relacionar ao ato de presentear?

As Neurociências trazem uma convergência de achados que sugerem o envolvimento de diversas regiões do sistema límbico e sinalizações dopaminérgicas em estados afetivos positivos. Os receptores opióides e GABA no estriado ventral, na amígdala e no córtex orbitofrontal, assim como vários neuropeptídeos podem participar de experiências relacionadas ao prazer sensorial e a satisfação. Em linha com os achados epidemiológicos sobre felicidade, estudos com neuroimagem funcional mostram que o bem-estar humano não é dirigido unicamente pelo resultado material, mas especialmente pela solidariedade, cooperação e justiça. Vários estudos da atualidade demonstram que os circuitos neurais mesolímbicos – envolvidos nas experiências de bem-estar e recompensa – mostraram maior atividade durante as escolhas genuínas de presentear e ofertar ao outro bem-estar. O desenvolvimento da generosidade, da cooperação e do altruísmo estiveram relacionados tanto ao processo de crescimento pessoal, como a um estilo de vida consistente de felicidade.

5) Por que, em muitas ocasiões, começamos a sentir esse prazer mesmo antes de presentear, apenas com a ideia do presente em mente? Como a neurociência explica isso?

Novamente, as Neurociências demonstraram que um comportamento pode ser aprendido e aperfeiçoado pela experiência subjetiva, que altera a “voltagem” das sinapses na rede neural, promovendo novos arranjos sinápticos e memórias, acessíveis em ocasiões posteriores. O que processamos introspectivamente como imagens, diálogos e percepções, a despeito de estímulos exteriores, tem forte impacto na constituição de referências que adotamos como “realidades” internas. A imaginação é uma importante ferramenta para geração de alterações neurofisiológicas. Por exemplo: concentre-se na visualização de uma fatia de limão azedo e suculento. Imagine essa fatia levada à boca para uma vigorosa mordida… Observe que a salivação é produzida como se o suco do limão realmente existisse. Para o cérebro, de fato existe. O mesmo ocorre quando imaginamos o ato de presentear.

Respostas Dr Julio Peres www.julioperes.com.br a Stephanie Borchardt
(Jornal Saúde Ultrafarma)