Os Jovens e o Vício

Por que os jovens dependentes buscam apoio nas religiões?

As religiões em geral ensinam o perdão, o amparo de Deus e a absolvição por meio do caminho do bem fornecendo maneiras de pensar o mundo que atendem algumas necessidades dos jovens que buscam a libertação da dependência química. A raiz da palavra religião (religare) exprime o sentido de volta à essência, retorno à origem criadora da vida. As tradições religiosas de maneira geral estabelecem os caminhos para o homem religar-se à origem verdadeira de sua natureza, podendo dessa forma viver em harmonia e equilíbrio. Os jovens dependentes quase sempre perdem, por algum tempo, a estabilidade constituída para conduzir o dia a dia. Isso pode favorecer o enfraquecimento da motivação para viver, o isolamento e a depressão. Solidão, vazio, desesperança e desamparo são palavras utilizadas, com frequência, por jovens dependentes para exprimirem seus estados emocionais. Nessas e em outras condições, muitas pessoas buscam um novo significado e propósito para suas vidas. A religiosidade e a espiritualidade estão fortemente enraizadas numa busca pessoal para compreender a vida, seu significado e suas relações com o sagrado ou o transcendente. Assim, as crenças e práticas espirituais e/ou religiosas podem atender essa necessidade dos jovens de buscar um sentido mais amplo e uma melhor qualidade para a vida.

Quais são os principais elementos religiosos que fazem com que esses jovens deixem o vício? Por quê?

Além da experiência clínica, centenas de estudos mostram a relação entre envolvimento religioso e saúde. A maioria deles revela que quanto maior o envolvimento religioso, maior o bem-estar e a saúde, ressaltando três principais aspectos:

  1. A espiritualidade e a religião são geralmente benéficas para lidar com a superação dos desafios pessoais.
  2. A dependência química pode sensibilizar os jovens a busca de um aprofundamento da religiosidade e da espiritualidade com o objetivo de superação.
  3. O uso produtivo da religião, a abertura espiritual/religiosa, a prontidão para enfrentar questões existenciais e a participação religiosa estão associados ao crescimento pessoal.

Observo na minha clínica que o uso da religiosidade e da espiritualidade na superação da dependência tem algo especial a oferecer: pode capacitar os indivíduos a responderem a situações em que tenham de se deparar com os limites do poder e do controle humanos no confronto com a vulnerabilidade. Além disso, crenças e práticas religiosas podem reduzir a sensação de perda do controle e de desamparo; podem fornecer uma estrutura cognitiva capaz de diminuir o sofrimento e, ainda, fortalecer o indivíduo para reconstrução de sua vida.

Como a fé ajuda nas fases de abstinência?

A falta de confiança e esperança pode favorecer o esmorecimento diante do desafio pessoal de atravessar a fase de abstinência e chegar ao objetivo de superação da dependência. O caminho da superação envolve várias fases e a fé, por outro lado, favorece importantes ganhos nessa jornada diária, como a potencialização da motivação e da confiança, para o enfrentamento das dificuldades em momentos críticos de impasse entre dar “um passo atrás” (recaída) ou “um passo a frente” (superação). O ato de crer teria sido tão vantajoso para os nossos ancestrais há milhares de anos que um maior número de pessoas sobreviveram a partir da fé, deixando mais descendentes que espalharam esse traço adiante. Esse grupo possivelmente teve mais esperança, coragem e enfrentou com mais motivação as adversidades. A abstinência é um convite para recaída caso o jovem não tenha um firme propósito de superá-la e a fé pode ser um elemento fundamental nessa travessia. Lembro-me de um paciente que há 8 anos, durante as crises de abstinência, repetia com fervor “isso vai passar e dias melhores virão!”. Hoje, de fato ele vive dias muito melhores.

Como a religiosidade influencia no psicológico dos que querem deixar as drogas? Que elementos ela trabalha?

Religião pode ser entendida como um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos projetados para auxiliar a proximidade do individuo com o sagrado e/ou transcendente, enquanto Espiritualidade envolve a busca pessoal de respostas sobre o significado da vida e sobre o relacionamento com o sagrado e/ou transcendente. A confiança subjetiva manifestada pela crença em um Deus responsivo pode influenciar positivamente jovens que atravessaram o processo de libertação das drogas. As religiões e a espiritualidade constituem uma parte importante da cultura, dos princípios e dos valores utilizados pelas pessoas (apenas 7% da nossa população não têm religião) para dar forma a julgamentos e ao processamento de informações. O conceito de enfrentamento e superação pelo uso da religiosidade envolve vários elementos como o apoio espiritual (busca de conforto por meio de amor e cuidado divinos), a entrega religiosa ativa (fazer o que é possível quanto às responsabilidades pessoais e confiar em Deus) e a busca de uma conexão espiritual e de uma direção religiosa. Vale lembrar o que o filósofo Sêneca nos ensina “É parte da cura o desejo de ser curado”, contudo, “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”. Durante a psicoterapia o objetivo, ou seja, o Estado Desejado deve ser esclarecido e determinado, despertando a energia da vontade necessária ao investimento pessoal nesse processo de mudança. A vontade é um atributo essencial ao ser humano e pode ser exercitada para o cumprimento dos objetivos psicoterápicos.

As chances de quem busca a fé ter uma recaída diminuem?

Sim, certamente. A fé pode ser cultivada ao longo do tempo por meio da religiosidade presente em grupos de apoio social (igrejas, templos, grupos de oração etc.), que em geral desencorajam comportamentos autodestrutivos como o uso de drogas e álcool e incentiva o perdão e a continuidade da vida alinhada à saúde. Nos grupos, exemplos de superação de indivíduos que aprenderam e se desenvolveram a partir de suas superações, que cresceram espiritualmente e adquiriram tranqüilidade ao lidar com as dificuldades podem ser referências para novos processamentos e enquadres cognitivos de outros jovens que buscam a estabilidade do bem-estar. A fé cultivada na atividade religiosa pode ser comunitária (com idas freqüentes ou disciplinadas a igreja, templos etc.), individual ou mesmo informal (orações em casa, leitura, escutar ou assistir a programas de TV) e essas práticas protegem o jovem da recaída.

Há mais alguma informação que queira/possa nos passar sobre o tema?

Gostaria de acrescentar que pesquisas científicas sugerem que a autoconfiança necessária à superação da dependência envolve três dimensões:

  1. A motivação de encontrar sentido na vida diária.
  2. A crença de que se pode influenciar o entorno e os resultados dos eventos.
  3. A opinião de que se pode aprender e crescer a partir das experiências positivas e negativas.

Esses aspectos predispõem à confiança, ao suporte social e à superação das adversidades. Há 15 anos a Psicologia e a Psiquiatria têm estudado os diferenciais de comportamentos dos numerosos indivíduos que superam grandes dificuldades. O fortalecimento das virtudes e do caráter (coragem, justiça, temperança, sabedoria, paciência, gratidão, solidariedade, persistência, amor e esperança) esteve relacionado ao crescimento dessas pessoas após o enfrentamento e a superação de importantes dificuldades. Finalmente, observo como psicólogo clínico que um objetivo bem demarcado e a disciplina no dia a dia fortalecida na motivação de construir uma vida verdadeiramente melhor são ingredientes decisivos a prosperidade (do Latim pro+sperare: esperança a diante) dos jovens.

Entrevista com o Dr. Julio Peres à Revista MALU