Entrevista site Empregos.com.br

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Por Dr. Julio Peres

1 – Do ponto de vista da neurociência, o que acontece com o profissional quando sofre pressão no trabalho?

Diante da contínua pressão no âmbito profissional, alterações cardíacas e viscerais apontam para níveis de hiperatividade do sistema nervoso autônomo (SNA), enquanto o estado subjetivo de alerta potencializa a geração de comportamentos de sobrevivência do tipo “luta ou fuga”. Tal estado de excitação envolve a formação reticular, o sistema límbico e o córtex cerebral. Diferentes neurotransmissores agem nessas vias, em especial a serotonina, a noradrenalina e o sistema GABAérgico. Em casos críticos, as expressões de cortisol (hormônio relacionado ao estresse) podem alcançar estágios crônicos afetando a morte de neurônios especialmente do hipocampo, estrutura cerebral relacionada à memória. Assim, dificuldades de concentração, memória, estado de alerta contínuo, cardiopatias, irritabilidade e insônia são manifestações comuns em profissionais sob pressão demasiada.

2 – Em outras palavras, com o intuito de alcançar os resultados no trabalho, quando pressionado, o profissional pode ter mais dificuldade em atingi-los, correto?

Sim, a relação ansiedade/desempenho deixa de ser vantajosa quando as pressões são demasiadas e assim, a performance decai sensivelmente. Contudo, muitos executivos com traço de ansiedade contínua se consideram bem-sucedidos profissionalmente, apesar de não gozarem de boa saúde e declararem insatisfação com a vida pessoal. Esses profissionais tendem ao adoecimento e afastamento do trabalho em médio prazo. Presidentes e Diretores de empresas que me procuraram observaram tal efeito paradoxal e implantaram novos sistemas de trabalho baseados nos diferenciais de comportamentos dos numerosos exemplos de indivíduos que prosperaram (do latim pro+sperare: esperança a diante) em suas vidas de maneira integral e consistente.

3 – Como o profissional pode minimizar os efeitos das pressões no trabalho?

Vale lembrar que a competição faz parte do dia a dia de quase todo indivíduo, não importando a sua atuação. Desde a infância, a ambientes esportivos, ligados ao setor da moda, ou mesmo de avanços tecnológicos e médicos, a competição faz-se presente em maior ou menor grau, sempre acarretando conflitos, angústia, insônia, e tristeza. Isso varia de pessoa para pessoa, considerando personalidade, ambiente, circunstâncias. Nossos ancestrais viveram em condições áridas, inóspitas e de fato precisaram da competitividade, da agressão e até mesmo da ansiedade para sobreviver e perpetuar a espécie. Nos dias atuais, agimos como se estivéssemos ainda sob a ameaça da morte por um animal maior ou uma tribo inimiga. Muitos ainda acreditam que os mais fortes sobrevivem, quando na verdade os que se adaptam melhor são aqueles que sobrevivem ou mesmo vivem com mais qualidade. Enquanto a teoria evolutiva tem sido utilizada há décadas para justificar o modelo econômico centrado no interesse próprio; discussões pertinentes estão caminhando em direção a uma racionalização do altruísmo e da cooperação. O comportamento egoísta pode causar danos aos outros, porém, nossas reações instintivas podem encontrar novos significados a partir de respostas cognitivas mais complexas, mediadas pelos córtices frontal e pré-frontal, tal como mostramos em nossos estudos com neuroimagem. A organização World Values Survey abordou o sistema de valores humanos em mais de 60 países e mostrou que o bem-estar consistente está relacionado a uma maneira coerente de viver. O desenvolvimento da generosidade, da cooperação e do altruísmo estiveram relacionados tanto ao processo de crescimento pessoal, como a um estilo de vida consistente de felicidade. Um estudo sobre o altruísmo, publicado pelo economista William Harbaugh, em 2007, na Science, revelou significativa atividade neural nas áreas ligadas à recompensa. Outros estudos também têm demonstrado ativação das mesmas áreas fronto-mesolímbicas associadas ao bem-estar em resposta a atitudes generosas, leais e de cooperação em jogos competitivos. Assim como indicam os estudos sobre felicidade, a Neurociência tem revelado que as pessoas que realmente se sentem bem, fazem o bem. A melhora consistente da qualidade de vida das pessoas sob pressão que buscaram a psicoterapia envolve geralmente cinco fatores: desenvolvimento de novos interesses e objetivos, apreciação e valorização da vida, melhor relação familiar e interpessoal, resgate da religiosidade e espiritualidade no dia-a-dia e a descoberta de força e recursos pessoais para superação de adversidades.

4 – Em algumas áreas de atuação, no entanto, é (quase) impossível ficar imune às pressões e ao estresse. Podemos dizer que a máxima de que a motivação nasce de dentro cai por terra?

De fato, vivemos atualmente sob fortes pressões e influências de consumo em um contexto cultural árido de significados para o sentido da vida. As novas tecnologias de entretenimento e a comercialização acelerada dos bens materiais disparam excitação, euforia e ansiedade, que ensombram a consciência dos valores essenciais à vidaem harmonia. Novas“necessidades” são artificialmente criadas a cada dia, imbuídas da falsa promessa de felicidade. A cultura contemporânea do descartável incentiva diuturnamente comportamentos como a pressa, a praticidade e a obtenção imediata dos bens que, supostamente, trariam conforto e aplacariam a angústia do vazio, assim como a ausência de sentido para a existência. Os relacionamentos interpessoais são igualmente influenciados pela oferta dos meios ágeis de comunicação, que favorecem interface superficial com grande número de pessoas (redes de relacionamento via internet), incitando contatos por interesse em vantagens imediatas e relações também descartáveis. Pessoas “coisificam-se” sucessivamente como produtos, ao passo que os vínculos afetivos se tornam cada vez mais frágeis. Em meio ao mar da inconsciência e a pressa da vida diária é fundamental buscar um sentido maior à existência. A consciência ampliada nesse sentido é o berço da maior e mais poderosa fonte de motivação.

5 – Uma atitude positiva por parte das empresas pode minimizar os efeitos das pressões no trabalho no colaborador mesmo que este lide com situações hostis?

Modelos alternativos e vantajosos para melhor qualidade adaptativa podem permitir o cultivo de comportamentos mais saudáveis, que certamente beneficiarão os profissionais que compõem o “organismo” empresa. A ciência cognitiva tem mostrado que o grande desafio do ser humano é vencer o dilema “ganho individual versus ganho coletivo” para geração de boas condutas que promovam desdobramentos positivos para o todo. A capacidade de superar essa tensão se relaciona com o desenvolvimento da consciência humana nessa nova linha de futuro que, além de dissipar o egoísmo destrutivo e os traumas causados pelo homem, resolve o problema básico da sobrevivência individual e torna o mundo melhor de se viver.

6 – É possível construir realmente a felicidade no trabalho? Segundo a neurociência, o que é esse estado, e como seria possível encontrá-lo?

A curiosa origem da palavra trabalho (do latim tripalium) refere-se a um instrumento romano de tortura, um tripé cravado no chão, onde eram supliciados os escravos. Por causa de sua ligação com a tortura, por meio desse instrumento, a palavra trabalho, consciente ou inconscientemente, tem sido relacionada com padecimento e sofrimento. Tenho me empenhado com meus pacientes na desconstrução dessa falsa crença e no fortalecimento da associação entre trabalho e felicidade. O estado subjetivo chamado de felicidade abrange um conjunto dinâmico de vivências, como: momentos de prazer fugazes na vida diária (surpresa agradável, prazer sensorial ao tomar banho, almoçar, ouvir uma música, etc.); satisfação com a vida, prazer mais duradouro (envolvendo o relacionamento diário com família, trabalho e amigos) e satisfação com a vida, bem-estar perene (compreendendo estilo de vida, gratidão, motivação e contentamento íntimo, propósito e significado amplos para a vida). Portanto, são várias as possíveis manifestações humanas de afeto positivo. As neurociências trazem uma convergência de achados que sugerem o envolvimento de diversas regiões do sistema límbico e sinalizações dopaminérgicas em estados afetivos positivos. Os receptores opióides e GABA no estriado ventral, na amígdala e no córtex orbitofrontal, assimcomo vários neuropeptídeos podem participar de experiências relacionadas ao prazer sensorial e a satisfação. Em linha com os achados epidemiológicos sobre felicidade, estudos com neuroimagem funcional mostram que o bem-estar humano não é dirigido unicamente pelo resultado material, mas especialmente pela solidariedade, cooperação, caridade e justiça. A angústia é o principal termômetro indicador de que já é hora de fazer algo novo com um significado maior para a existência. A temperança e o tempo para um mergulho íntimo são necessários na busca do significado mais amplo para o viver, e a psicoterapia tem ajudado muitas pessoas dispostas a mudarem suas vidas para melhor.