Emoções e a escrita

Uma pesquisa na Universidade de Kansas, nos EUA, acompanhou 180 mulheres em estágio inicial do câncer de mama por três meses. As que passaram seus sentimentos para o papel tiveram metade dos problemas físicos relacionados ao tratamento. Por que escrever sobre as próprias emoções ajuda a melhorar a saúde?

Aprender a falar, a ler e a escrever é aprender a traduzir. Talvez, o que aprendemos nos primeiros dois anos de vida seja mais importante que todo o conhecimento reunido ao longo de uma extensa formação acadêmica. Ainda que a palavra (falada e escrita) não seja a única via para comunicação, certamente é uma das mais usadas no contexto terapêutico. Um dos focos do tratamento terapêutico de pessoas traumatizadas ou que atravessam adversidades importantes consiste justamente na tradução da experiência, buscando palavras que a sintetizem. À medida que vamos traduzindo a ocorrência em sínteses (representações narrativas), conseguimos atribuir significados à vivência pessoal, equacioná-la e, finalmente, superá-la com natural impacto positivo na saúde. Por outro lado, ficar em silêncio não impede que as angústias e sofrimentos se manifestem com toda a sua potência e, mais grave ainda, não permite o processamento do trauma, a reestruturação da ocorrência dolorosa pelo indivíduo e a sua superação.

Escrever também pode ajudar a ter domínio sobre as emoções e, consequentemente, mais autoconhecimento? Por que?

Escrever é de fato conhecer melhor a si mesmo. A riqueza de nossas experiências individuais é projetiva e imensamente subjetiva, e os aprendizados adquiridos nesse processo estão entre os pilares da constituição dos comportamentos diários. Ao escrevermos nossas experiências podemos observar e reconhecer as projeções do nosso eu, ampliando o aprendizado sobre nós mesmos. Muitos psicólogos e filósofos analíticos acreditam que o pensamento é completamente verbal, como sempre realizado por meio de palavras. Essa ideia fortaleceu-se com o surgimento de estudos de Linguística, contrapondo-se à concepção alternativa segundo a qual os pensamentos são imagens incorpóreas que flutuam na mente. Independentemente de assegurar que todos os pensamentos se realizam mediante palavras ou não, certamente muitos assim ocorrem. Isto é, por meio das palavras traduzimos sínteses do que pensamos e reflexos do que somos; entretanto, os pensamentos têm amplitude e refinamento muito maiores do que a capacidade de “tradução” das palavras. Portanto, o autoconhecimento por meio da escrita é um caminho interminável.

Quais os outros benefícios que a escrita pode trazer para a vida das pessoas?

A escrita como exercício pessoal favorece a construção de recursos pessoais para lidar mais harmoniosamente com os eventos de vida. O processamento de nossas experiências pessoais é bastante peculiar e, por tal razão, eventos comuns ou importantes são percebidos, codificados e processados de maneira muito particular. Quando alguém escreve sobre a sua experiência, está representando códigos associados à memória do que ocorreu. Nesse processo, construímos, reconstruímos significados e descobrimos novas versões do episódio ao qual nos referimos, ampliando assim as possibilidades de manejar os acontecimentos diários com repertório mais amplo, refinado e, portanto, mais eficaz para cultivo do bem-estar.

Por que tanta gente tem dificuldade em lidar com as emoções, especialmente as negativas?

Muitas pessoas traumatizadas evitam falar sobre o trauma para evitar um retorno ao horror experimentado, proliferando assim efeitos ainda piores dos sintomas. A supressão dos pensamentos – tentativa deliberada de evitar certos pensamentos – é uma estratégia de enfrentamento frequentemente associada a sintomas de indivíduos com traumas psicológicos. Paradoxalmente, a dificuldade de expressar as emoções e enfrentar as adversidades aumentam o problema/sofrimento, que a psicoterapia tem ajudado muitas pessoas desconstruírem. Por exemplo, uma explicação neurobiológica do tratamento eficaz sugere que novos traços de memória se formam em um cérebro plástico por meio da fala e da escrita orientadas, substituindo as conexões anteriores que produziam o sofrimento e as reações de ansiedade.

Do ponto de vista psicológico, o que acontece quando colocamos nossos sentimentos no papel?

As palavras frequentemente são o veículo dos nossos pensamentos. Atribuir palavras às nossas experiências é criar significado e representação para elas. O trauma psicológico está relacionado à ausência de significado semântico. Assim como as crianças, as pessoas traumatizadas precisam atribuir significados para então conseguirem explicar o que ocorreu. É necessário decifrar (interpretar as cifras ou o que está mal escrito) o trauma para superá-lo. Um dos focos do tratamento terapêutico de indivíduos traumatizados consiste justamente na tradução da experiência buscando palavras que a sintetizem, em lugar de suprimir os pensamentos. O desafio das abordagens terapêuticas é levar o paciente para fora desse “mundo indescritível” (sem representações) por meio da atribuição de significado aos conteúdos emocionais e sensoriais dispersos. A terapêutica do trauma não está simplesmente em contar a história, mas em como fazê-lo: é preciso estabelecer uma aliança de aprendizado com a adversidade.

Nesse sentido, fazer um diário pode ajudar? 

Sim, o diário pode ajudar e muito. Assim fez Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto, escritor e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1986. Wiesel escreveu e reescreveu suas experiências e certamente pode significar e ressignificar seus traumas por meio da sua obra. Esse exemplo de superação nos deixa uma importante lição: “…nós devemos falar. Ainda que não consigamos expressar nossos sentimentos e memórias da maneira mais adequada, devemos tentar. Precisamos contar nossa história tão bem quanto pudermos. Se eu ficar em silêncio, enveneno minha alma”.

No caso de desentendimentos com pessoas queridas, escrever também pode ajudar a solucionar os problemas com quem você gosta?

Sim, especialmente se a “temperatura emocional” estiver alta. As reações impulsivas e pouco processadas cognitivamente são freqüentes quando a raiva, a tristeza ou o medo prevalecem. Lembro ainda que a velocidade de processamento do pensamento é muito superior a velocidade que podemos escrever. Na prática, ao falarmos podemos mais facilmente reagir, inflamar as emoções e dificultar o entendimento em comparação a condição da escrita. Por outro lado, ao escrevermos temos que diminuir o “ritmo interno” para sincronizarmos o pensamento a funções motoras envolvidas na escrita e com isso, conseguimos uma organização mental relativamente superior a que se manifesta quando falamos diretamente o que pensamos. O benefício da escrita chega para as duas partes: quem escreve, lê e reescreve pode se organizar cognitivamente para melhor traduzir o que tem em mente, sem a ebulição emocional, enquanto quem recebe o texto tem a oportunidade de ler, reler o conteúdo, atenuar a reação emocional e favorecer a resposta assertiva para a ocasião. Depois dessa etapa, o contato pessoal pode ser mais tranqüilo, o que certamente favorece o entendimento mutuo.

Quais as dicas para quem gostaria de escrever, mas não sabe por onde começar?

Sugiro que histórias com relevância emocional e aprendizados consistentes sejam escritas. Ainda que um sentido maior não tenha sido encontrado para determinada passagem de vida, vale a pena escrever sobre o tema que permanece aberto. Os neurocientistas Eric Kandel e Larry Squire mostraram que lembrar implica reconstrução de uma trama coerente por meio de fragmentos disponíveis. Durante a escrita, é natural que insights aconteçam e um novo significado na direção do bem-estar seja processado, se assim você desejar.

Entrevista com o Dr. Julio Peres “Emoções X Escrita”