Demissão

O que representa ser demitido na vida de uma pessoa?

Não há uma resposta universal à demissão. São inúmeras as possibilidades de interpretações, diálogos internos e representações para o que aconteceu na demissão. Por exemplo, a percepção da demissão como derrota pode assumir uma dimensão subjetiva tão expressiva a ponto de desencadear isolamento social, distorções depreciativas da auto-imagem, enfermidades e/ou transtornos como a depressão. O sofrimento decorrente das demissões depende em boa parte do processamento perceptual e dos diálogos internos que o indivíduo alimenta, e essa “leitura” por muitas vezes se torna um marco, saudável ou não, que influencia as próximas experiências de vida.

Ser demitido afeta a autoestima? Como?

O desemprego afeta o bem-estar subjetivo mesmo sem os indivíduos passarem por necessidades. O diferencial é sentir-se útil e produzir algo com mérito. Portanto, a satisfação subjetiva decorrente do investimento em um novo objetivo saudável pode ser construída e a psicoterapia tem ajudado muitas pessoas a encontrarem os caminhos para superação.

Curiosidade:

Vale lembrar que a curiosa origem da palavra trabalho (do latim tripalium) refere-se a um instrumento romano de tortura, um tripé cravado no chão, onde eram supliciados os escravos. Por causa de sua ligação com a tortura, por meio desse instrumento, a palavra trabalho, consciente ou inconscientemente, tem sido relacionada com padecimento e sofrimento. Tenho me empenhado com meus pacientes na desconstrução dessa falsa crença e no fortalecimento da associação entre objetivos profissionais e felicidade. Os estudos epidemiológicos sobre felicidade mostram que o bem-estar humano não é dirigido unicamente pelo resultado material, mas especialmente pela solidariedade, cooperação, caridade e justiça.

Como uma pessoa que convive com quem foi demitido pode ajudar esta pessoa? Que tipo de atitudes beneficiam numa situação dessas?

Vivemos atualmente sob fortes pressões e influências de consumo em um contexto cultural árido de significados para o sentido da vida. Novas “necessidades” são artificialmente criadas a cada dia, imbuídas da falsa promessa de felicidade. Pessoas “coisificam-se” sucessivamente como produtos, ao passo que os vínculos afetivos se tornam cada vez mais frágeis. Nesse contexto, uma demissão inesperada pode ser um evento traumático, uma vez que o trauma se relaciona com o fator surpresa. A família e os amigos podem ajudar, além da psicoterapia. É importante que um novo objetivo seja construído e alinhado ao sentido amplo com significado para vida. A consciência ampliada nesse sentido é o berço da maior e mais poderosa fonte de motivação. As pessoas que superam o trauma da demissão compreendem que elas podem ser as provedoras do próprio bem-estar, e os entes queridos podem sensibilizar esse processamento cognitivo.

Como fazer para não se deixar abater depois de ser demitido – dicas bacanas para podermos fazer uma listinha no final da matéria?

Estabelecer uma aliança de aprendizado com a demissão tem despertado muitas pessoas para buscas e reflexões que configuram qualidades de vida geralmente superiores àquelas vivenciadas antes do episódio doloroso. Se você sofre com a demissão, pense a respeito de algumas boas razões para aprender com os supostos fracassos.

  1. Aceitar que você foi demitido não é uma fraqueza. Ao contrário, é um ato de coragem a favor da integração (do latin integrare: tornar-se inteiro) que pode fortalecer o caráter e a disposição para seguir em frente em busca de um sentido mais amplo para sua vida.
  1. O princípio da impermanência (tudo se encontra em movimento e transformação) se mostra em todo o Universo, do micro ao macrocosmo. Ainda que o sofrimento da demissão pareça permanente, lembre-se que esse estado também será passageiro. Pensar sobre novos caminhos para superação e focar o seu investimento nessas possibilidades abreviarão a sua travessia pelo sofrimento.
  1. Trabalhar um bom tempo em determinado seguimento e ser demitido envolve um processo permeado por aquisições de conhecimentos que beneficiarão também outros domínios da vida. Assim, a demissão pode ser apenas parte de uma história de superação. Vale lembrar que a percepção é seletiva e influenciada pelas emoções (positivas ou negativas). Novas oportunidades surgirão especialmente quando você tiver olhos para enxergá-las.
  1. A disponibilidade ao aprendizado confere um estado de ânimo saudável e desarticula autovitimização, que só leva ao sofrimento. O que você diz para si e para os outros sobre o que ocorreu pode tanto aliviar como exacerbar o sofrimento. A fixação em diálogos internos do tipo “Isso é injusto” ou “Não poderia ter acontecido comigo” dificulta a recuperação e favorece a continuidade do sofrimento. Assumir a responsabilidade em relação ao que você pode fazer agora traz de volta o controle para suas mãos e a libertação do passado.
  1. As neurociências mostram que lembrar compreende a reconstrução de informações coerentes por meio de fragmentos disponíveis de modo que o conjunto faça sentido. Assim, o passado é flexível e modifica-se com novas interpretações das recordações e reexplicações do que aconteceu. Se você buscar pelo menos um aprendizado (ou mais) advindo(s) da demissão, o sentido da sua história modificará para melhor. O psiquismo é ágil e precisa de orientação para que tal agilidade esteja a favor do bem-estar.
  1. A superação de um sofrimento está diretamente relacionada ao que a Psicologia chama de Extinção: o indivíduo estabelece uma nova hierarquia de respostas num processo ativo de aprendizado. Assim, as novas associações construídas substituem aquelas que geravam o sofrimento decorrente da demissão.
  1. Criar alianças de aprendizado com as adversidades predispõe e favorece a superação psicológica. De fato, as dificuldades perdem força a medida que o aprendizado por elas trazido for absorvido. O repertório de aprendizados decorrentes de uma aparente derrota decorrente da demissão pode trazer uma qualidade de vida superior a que você tinha antes mesmo da demissão acontecer.
  1. A maturidade se relaciona indiretamente com o passar do tempo e diretamente com o aprendizado que as experiências trouxeram. Conforme traduz o provérbio oriental “Saber e não fazer, ainda não é saber”, as lições trazidas pelos eventos difíceis tornam o indivíduo mais maduro e portanto, com mais recursos para contornar as adversidades futuras.
  1. A opinião de que se pode aprender e crescer a partir das experiências positivas e negativas influencia os resultados dos eventos e favorece a motivação de encontrar sentido na vida diária. As demissões, quando bem elaboradas, favorecem a geração de novos objetivos e estratégias para concretizá-los.
  1. Nossos estudos com neuroimagem mostraram o que acontece no cérebro das pessoas que aprenderam com seus sofrimentos. Novas classificações e traços de memória se formam no cérebro, substituindo as conexões neurais anteriores envolvidas com o sofrimento. Essa evidência reforça a importância de aprender com a dificuldade em vez de sucumbir a ela.

Entrevista concedida ao Site Delas iG DEMISSÃO