Coragem versus Medo

O diálogo entre o medo e a coragem está presente em muitas expressões artísticas, como pinturas, esculturas e peças literárias, que retratam assertivamente a coexistência entre essas duas aparentes polaridades. A despeito da crença de que uma condição exclui a outra permanecer predominante ao senso comum, a coragem não tem um significado único e envolve vários aspectos, assim como o medo. Em outras palavras, se você tem medo, isso não significa que você não tenha coragem, ou vice-versa. O medo exacerbado é comum em pessoas que atravessaram eventos estressores que perturbaram o curso natural de suas vidas e preenchem os critérios diagnósticos de certos transtornos como TEPT, fobias específicas, pânico, depressão, entre outros. A tendência de superestimar o impacto subjetivo de um evento aversivo também é um fenômeno psicológico comum em pessoas saudáveis. O medo, em grande parte, está relacionado à sobrevivência. Vale lembrar que uma síndrome rara de calcificação da amígdala (relacionada à detecção de situações perigosas, assim como a expressão do medo) torna o indivíduo vulnerável a uma morte precoce. O medo protege e não devemos rechaçá-lo equivocadamente. A coragem pode emergir diante de situações que convergem elementos como a presença de riscos e perigos relevantes, ansiedade relacionada à incerteza, dúvidas, medo e vulnerabilidade. Contudo, a coragem não deve ser tratada como um desafio ingênuo de exposição ao risco ou uma competição pueril de forças; tampouco deve ser considerada como expressões não analógicas do tipo “tudo ou nada, tenho ou não tenho”. A coragem não é ilimitada e não deve ser um teste irresponsável intra e interpessoal. Não precisamos de heróis mortos, mas “bem vivos” como exemplos saudáveis de superação. O pensador inglês Gilbert Chesterton definiu coragem como “um forte desejo de viver, sob a forma de disposição para morrer”. Infelizmente, muitos associam erroneamente coragem à morte. Contrapondo esse conceito de exposição à morte, o escritor italiano Vittorio Alfieri escreveu, no século XVIII, que “muitas vezes a prova de coragem não é morrer, mas sim viver”, que eu legitimo com a experiência clínica. Outras vezes, em casos de doenças terminais, a coragem se relaciona com a aceitação das limitações e, mesmo assim, lidar com a doença e a eminência da morte de maneira serena.

Considero que ser corajoso inclui responsabilidade e integridade alinhadas ao desenvolvimento e à prosperidade pessoal; envolve estar consciente das ameaças e resolver problemas usando discernimento e capacidades para atender as necessidades pessoais e também do entorno. O existencialista Paul Tillich define coragem como um ato ético: o homem afirma seu próprio ser em relação aos elementos de sua existência que entram em conflito com sua auto-afirmação essencial. Assim, existir envolve a coragem de ser, que impulsiona para além dos sofrimentos e mobiliza o enfrentamento à ameaça, aos obstáculos e ao vazio do não ser. Estendendo o conceito da coragem, Tillich escreve também sobre a fé como um estado de potência e aceitação existencial de algo incerto que transcende a experiência ordinária.

O que Significa Coragem?

Coragem tem em sua etimologia o significado “ato do coração”. Esse conceito pode ser relacionado a várias expressões, como convicção e direcionamento da energia para fazer o certo, força moral ante o perigo, poder para resolução, ânimo, bravura, firmeza, intrepidez, ousadia, constância, perseverança, desembaraço e franqueza. Expressões literárias traduziram a coragem associada à virtude, como Aristóteles, que a considerou “a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras”. Por exemplo, Miguel de Cervantes, em sua obra Dom Quixote, revela a coragem como um esteio da vida, escrevendo: “quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo”. Coragem está também intimamente relacionada com autoestima, vontade, princípios e valores éticos perante a vida. Diante da adversidade, a coragem e os resultados subsequentes, quando positivos, conferem uma autoimagem satisfatória de dignidade. Contudo, sendo a coragem um alicerce para a manutenção a dignidade moral, se enfraquecida pode desempenhar um papel causal na crítica depreciativa e desmoralização. A coragem é vista pelo senso comum como a virtude dos heróis; e quem não admira os heróis? As pessoas se sentem às vezes desmoralizadas por não terem ainda a coragem suficiente ao enfrentamento. A cultura “somente os mais fortes sobrevivem” pode exercer influência crítica nesse sentido, com auto julgamentos pejorativos de covardia, fraqueza e incapacidade. Por muitas vezes, ouvi de pacientes no início do tratamento frases como “sou um fraco, sinto medo de enfrentar essa situação, eu me sinto incapaz…”. Sempre que necessário, ajudo as pessoas a corrigirem essas crenças com algumas reflexões. Em primeiro lugar, não são os mais fortes, mas os que se adaptam melhor, que sobrevivem. Portanto, o trabalho terapêutico deve visar recursos de adaptação ao ambiente e às condições atuais. Além disso, o medo não exclui a coragem ao enfrentamento, mas faz parte de processos adaptativos e sem ele não estaríamos aqui. Em outras palavras, a coragem não é a ausência de medo, mas uma superposição a ele por razões, conhecimentos, valores e valências emocionais mais fortes. Considero que a coragem sem o medo pode ser uma temeridade. Infelizmente, poucos falam sobre os “atos de coragem” malsucedidos ou reportam aprendizados vindos do insucesso. A coragem líquida (advinda do efeito do álcool) foi estudada em relação à probabilidade de manifestação dos comportamentos sexuais de risco. Os autores do Departamento de Psicologia da Universidade de Washington mostram que o álcool deprecia a censura, e algumas pessoas se sentem mais “sensíveis, alegres, agressivas ou corajosas” quando alcoolizadas. Os comportamentos sexuais de risco não estiveram correlacionados ao grupo controle de participantes sóbrios. Por outro lado, os comportamentos de extremo risco (como não fazer uso de preservativo com parceiras desconhecidas) estiveram significativamente correlacionados ao grau de embriaguez. Refletindo sobre esses achados, ressalto que o uso do álcool pode favorecer riscos, em parte, pela atenuação ou neutralização do medo e da ansiedade. Conceitos pragmáticos de coragem como um comportamento de aproximação a despeito da vivência do temor são usados em estudos científicos. A aproximação pode ser objetiva e/ou subjetiva. Por exemplo, 22 voluntários com fobia de aranha foram estudados quanto à coragem de enfrentamento de seus medos. Os participantes foram submetidos a instrumentos psicológicos que avaliam direta e indiretamente a coragem, assim como a exposição real a quatro tarântulas taxidermizadas (que parecem reais) com o objetivo de aproximar a mão o máximo possível. O estudo, realizado em 2009 pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Houston, mostrou que os escores de coragem subjetiva eram significativamente correlacionados às distâncias de aproximação das aranhas,isto é, os participantes com maior pontuação de coragem chegaram mais perto das aranhas.

De fato, a coragem é um importante fator para o enfrentamento de temores e adversidades. A chegada ao consultório psicoterápico revela esse passo de coragem e a motivação para vencer a dificuldade. Considerando que a expressão do medo se relaciona diretamente a vulnerabilidades específicas ao que o indivíduo não controla e/ou não conhece, a coragem fortalecerá, durante a psicoterapia, com o conhecimento e controle gradativamente adquiridos. Amparando essa abordagem, os desempenhos sob estresse de profissionais especializados em desarmar bombas e de pessoas sem experiência anterior nessa tarefa foram comparados. Os resultados publicados em 1983 no periódico British Journal of Psychology mostraram que os especialistas apresentaram menor freqüência cardíaca, menor ansiedade e maior controle cognitivo da situação em comparação com os não profissionais, que executaram a mesma tarefa com medo exacerbado e pior desempenho. Os indicadores de coragem foram similares nos dois grupos estudados. Esses achados evidenciam que o conhecimento e o controle da situação estão correlacionados à coragem e também ao melhor desempenho relativo à exposição de riscos importantes.

É Possível Aprender a Ter Coragem?

O psicólogo holandês Peter Muris conduziu um interessante estudo que investigou a construção da coragem em crianças entre 8 e 13 anos de idade. Elas foram entrevistadas sobre a ação mais corajosa que já tinham realizado em suas vidas e o nível de medo e de coragem vivenciados durante esses eventos. Os resultados indicaram que quase todas as crianças (94%) tinham realizado uma ação corajosa em algum momento da vida, embora os níveis de medo e de coragem associados a esses atos variasse consideravelmente. O estudo concluiu que o medo e a coragem em crianças são largamente independentes e, em convergência com o que penso, não constituem, necessariamente, duas faces da mesma moeda.

De fato, todos nós já superamos desafios na infância, adolescência e idade adulta, como dormir em quarto separado dos pais,fazer provas difíceis na escola, aprender a andar de bicicleta ou dirigir, confrontar uma situação desconhecida, entre muitas outras.

A faculdade da generalização permite a construção de aprendizados associativos ao longo desenvolvimento infantil (por exemplo, se consegui subir um degrau da escada, conseguirei subir o segundo, além de vencer outros desafios similares). A coragem pode ser também reforçada com as lembranças das situações desafiadoras bem-sucedidas e a percepção das estratégias utilizadas para a superação desses eventos. A consciência das estratégias adaptativas bem-sucedidas permite o deslocamento destas para situações ainda não superadas. A autoconfiança e o controle são esteios necessários à coragem para os novos passos em direção ao aprendizado e desenvolvimento pessoal. Assim, a coragem pode ser aprendida e cultivada na psicoterapia a partir do controle gradativo das variáveis temerosas, do conhecimento real das motivações pessoais e do porquê de enfrentar a adversidade.

O medo pode se tornar crônico não só quando o ambiente continua ameaçador, mas quando não ocorre a atualização dos dados seguros que o ambiente agora oferece. Uma vez que as condições do entorno e os eventos traumáticos tenham cessado, uma das ferramentas terapêuticas utilizadas em indivíduos com incessantes temores exacerbados é a exposição gradativa para atualização e aprendizado das informações seguras. Durante esse processo, as variáveis devem ser controladas, tanto quanto possível, e o imponderável também deve ser bem-vindo. As fases das exposições são terapeuticamente bem escolhidas e delineadas para que não haja frustração. Inicialmente, a exposição imaginária fortalece as redes neurais para superação; em seguida, a exposição in vivo consolida esse processo de vitória. Priorizar talentos, valores e capacidades, encontrar o significado e as mudanças positivas associadas ao sofrimento, fortalecer o controle e cultivar a motivação para seguir em frente ressignificam a relação com o temor especifico. Portanto, a coragem que se desenvolve na psicoterapia não se relaciona com a audácia ou a temeridade, mas com o conhecimento, a prudência, o ânimo e a paciência para o enfrentamento bem-sucedido. Algumas lições de casa, como descrever momentos corajosos de sua vida para serem explorados e fortalecidos em psicoterapia, são úteis ao fortalecimento da coragem para o enfrentamento das mais sensíveis vulnerabilidades atuais.

A Psicoterapia aplicada às vítimas de trauma psicológico objetiva não só remover o temor e a sensação de extrema vulnerabilidade como também reconstruir as crenças básicas adquiridas na experiência traumática. Como resultado, os pacientes conseguem se desconectar de um passado assustador e deixam de interpretar alguns ou vários estímulos como retorno ao trauma, identificando-se e respondendo adaptativamente ao presente. A ciência psicológica tem dado maior atenção às terapias de exposição imaginária para a reestruturação cognitiva de eventos passados sob uma nova perspectiva de compreensão e aprendizagem. O componente essencial do tratamento de exposição abrange repetidos confrontos com as memórias do evento estressor (exposição às memórias e imagens traumáticas) para propiciar a reescrita do trauma numa perspectiva de aprendizado e superação. Quando o evento estressor é demasiadamente forte para o indivíduo, o trauma fica “impresso em fragmentos sensoriais e emocionais”, e a terapia então pode ajudar.