Como o profissional pode controlar o nível de estresse no ambiente de trabalho

É preciso primeiramente esclarecer o que é estresse. Algumas palavras que traduzem conceitos psicológicos e médicos são usadas pelo senso comum para designar significados equivocados, distintos dos originais. Por exemplo, ouvimos com freqüência “estou neurótico” para expressar “estou nervoso” ou “surtei” para comunicar “exagerei emocionalmente”. O mesmo acontece com a palavra stress, derivada de distress, usada comumente com distorções conceituais. O médico austríaco Hans Selye empregou em 1936, como termo médico, a palavra inglesa stress para definir os mecanismos neuroendócrinos adaptativos do organismo a estímulos exteriores, sejam positivos ou negativos. Em 1950, Selye publicou a obra que o consagrou, na qual expôs a síndrome geral de adaptação. Apesar de o termo inicialmente ser definido como uma resposta necessária e saudável, hoje o conceito está associado à sobrecarga e ao prejuízo da qualidade de vida, mas na verdade estresse diz respeito a adaptação ao ambiente. De fato, vivemos, atualmente, sob fortes influências de consumo em um contexto cultural árido de significados para o sentido da vida. A cultura contemporânea do descartável incentiva diuturnamente comportamentos como a competitividade, a pressa, a praticidade e a obtenção imediata dos bens que, supostamente, trariam conforto e aplacariam a angústia do vazio, assim como a ausência de sentido para a existência. A cultura dos grandes centros urbanos com bombardeamento de informações, responsabilidades e objetivos, às vezes inexequíveis, propõe um estilo de vida competitivo contrário ao objetivo prometido de felicidade. Muitos executivos se consideram bem-sucedidos profissionalmente, apesar de não gozarem de boa saúde e declararem insatisfação com a vida pessoal. Portanto o “controle do estresse” não pode ser encarado com superficialidade e tampouco devemos estimular técnicas que supostamente possam apagar focos de incêndio, tal como um extintor que mecanicamente fazemos uso. Durante a última década, a Psicologia e a Psiquiatria têm estudado os diferenciais de comportamentos dos numerosos exemplos de indivíduos que prosperaram (do latim pro+sperare: esperança a diante) diante das adversidades que a vida impõe. Os estudos mostram que o bem-estar consistente se relaciona com a promoção da consciência ampliada e de um sentido maior para a existência, que naturalmente motiva o indivíduo em sua vida diária.

Quais comportamentos ajudam a combater o estresse?

A inconsciência é a principal provedora do estresse e, portanto, a consciência pode desconstruí-lo. Um exemplo da inconsciência como fonte de estresse pode ser observada no trabalho. A etimologia da palavra trabalho (do latim tripalium) refere-se a um instrumento romano de tortura, um tripé cravado no chão, onde eram supliciados os escravos. Por causa de sua ligação com a tortura, por meio desse instrumento, a palavra trabalho, consciente ou inconscientemente, tem sido muitas vezes relacionada com padecimento e sofrimento. Tenho observado no ambiente corporativo um impacto muito positivo de palestras que proporcionam o despertar da consciência e a sensibilização de um significado mais amplo para vida. O desenvolvimento das virtudes como a coragem, a justiça, a temperança, a sabedoria, a paciência, a esperança e o amor promovem uma melhora significativa na qualidade do viver – com os colegas, funcionários, chefia, amigos e família. Atualmente, além da experiência clínica temos uma vasta literatura científica a respeito do crescimento pessoal. Tais informações chegam aos poucos ao público geral, que começa a compreender o passo-a-passo prático alinhado a construção de um estilo de vida consistente de bem-estar e realização pessoal.

Há técnicas de relaxamento que podem auxiliar no controle do estresse?

O diapasão do bem-estar e da harmonia é o grande termômetro para medir quanto um indivíduo está vivendo de acordo com a sua essência interior. Não é difícil identificar os referenciais de conduta para uma vida harmoniosa. O princípio sábio e harmonioso que rege a vida no universo manifesta-se naturalmente em nós. Por exemplo, observemos os movimentos de expansão e contração dos pulmões ao estabelecer a respiração: estamos fornecendo e recebendo nutrientes em proporções harmoniosas para que a vida se propague e prospere. O indivíduo ansioso “respira curto”, mais inspira que expira e deixa resíduo nos pulmões. Soltar os resíduos na expiração é o primeiro passo para que o novo ar possa entrar no sistema. Observar a respiração e trocar proporcionalmente com o entorno pode favorecer uma relação equilibrada e saudável na vida diária.

De que forma a redução de estresse e aumento da satisfação impacta o ambiente? Há estudo sobre isso?

O World Values Survey abordou o sistema de valores humanos em mais de 60 países e mostrou que a satisfação está relacionada a uma maneira coerente de viver. Alguns fatores que compõem um estilo de vida provedor de bem-estar foram encontrados, como: o suporte social (boa convivência com a família, os colegas de trabalho e os amigos) esteve fortemente relacionado à felicidade; voluntariado e caridade estiveram associados ao maior significado de vida e felicidade; as pessoas com autoestima elevada e que se sentem úteis e realizam suas atividades profissionais com mérito (variáveis dependentes) são mais satisfeitas; as pessoas que relatam com frequência o sentimento de gratidão têm maiores índices de afetos positivos e felicidade. Em suma, índices maiores de cooperatividade estiveram fortemente relacionados à felicidade, e como conseqüência ao melhor desempenho profissional. O impacto positivo no ambiente é uma conseqüência natural da relação saudável que o individuo constrói nesse sentido. Vale lembrar que a satisfação, ou em outras palavras, o estado subjetivo chamado de felicidade abrange um conjunto dinâmico de vivências, como: momentos de prazer fugazes na vida diária (surpresa agradável, prazer sensorial ao tomar banho, almoçar, ouvir uma música, etc.); satisfação com a vida, prazer mais duradouro (envolvendo o relacionamento diário com família, trabalho e amigos) e satisfação com a vida, bem-estar perene (compreendendo estilo de vida, gratidão, motivação e contentamento íntimo, propósito e significado amplos para a vida). Portanto, são várias as possíveis manifestações humanas de afeto positivo. As neurociências trazem uma convergência de achados que sugerem o envolvimento de diversas regiões do sistema límbico e sinalizações dopaminérgicas em estados afetivos positivos. Os receptores opióides e GABA no estriado ventral, na amígdala e no córtex orbitofrontal, assim como vários neuropeptídeos podem participar de experiências relacionadas ao prazer sensorial e a satisfação.

Entrevista com o Dr. Julio Peres para o Site IG