Prêmio Abril – Saúde Mental e Emocional

Da esquerda para a direita, o médico da polícia militar Mauricio Domingues, Anderson Xavier de Oliveira, o policial militar Leandro Gomes, Bernd Foester, Henrique Lederman e Julio Peres. Foto: Bruno Gabrieli

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, decidiram usar tecnologia avançada para analisar os efeitos da psicoterapia no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O distúrbio é marcado por sintomas como insônia, irritabilidade, hipersensibilidade a ruídos e pode desencadear a síndrome do pânico e a depressão.

Para participar do trabalho pioneiro, foram convidados 36 policiais militares da cidade de São Paulo que sofreram os ataques de uma facção criminosa em maio de 2006. “Além de passar por momentos de tensão, esses profissionais socorreram feridos e presenciaram a morte de amigos”, conta o psicólogo Julio Fernando Prieto Peres, que capitaneia o estudo. Eles foram separados em três grupos: um era formado por policiais sem sintomas do TEPT. Os outros dois contavam com militares abalados por aquele momento, sendo que só uma turma passou por sessões de psicoterapia. A partir daí, o cérebro de cada um deles foi avaliado por meio da chamada ressonância magnética funcional, um exame moderníssimo que permite enxergar o trabalho dos neurônios em diversas áreas da massa cinzenta. Após uma análise detalhada, os especialistas perceberam que a cabeça dos policiais submetidos à intervenção psicológica funcionava de maneira similar à daqueles que tinham uma maior resistência natural ao estresse. Ou seja, antes da terapia, as imagens apontavam para um aumento da atividade da amígdala, uma área no cérebro envolvida com a expressão do medo. Depois, graças à ajuda terapêutica, elas se tornaram bem parecidas com as dos policiais que, apesar das situações dramáticas, apresentavam um tipo de resistência natural. E, para completar, os participantes que foram tratados relataram melhora na qualidade do sono e atenuação do nervosismo. “Nosso trabalho mostra que a resiliência pode ser desenvolvida na psicoterapia e este aprendizado modifica o cérebro”, conclui Julio Peres. O estudo foi elogiado por profissionais de universidades mundo afora.

Saiba mais
Terapêutica do trauma psicológico de policiais militares: estudo com ressonância magnética funcional
Autores: Julio Fernando Prieto Peres, Bernd Foester, Mauricio Domingues, Alexander Moreira-Almeida, Leandro Santana, Antonia Gladys Nasello, Mariangela Gentil Savoia, Henrique Lederman
Instituição: Universidade Federal de São Paulo

Veja também:

Especialistas estrangeiros comentam o estudo

Entrevista concedida à Denize Guedes – Jornal Estadão

“Este estudo é uma demonstração impressionante do modo como o córtex pré-frontal (ligado à classificação dos eventos e à superação) e a amígdala (ligada à expressão do medo) interagem.”
Joseph E. LeDoux, do Centro para Neurociência, da New York University

“Este trabalho está na fronteira dos estudos atuais para entender os mecanismos biológicos que ligam estresse e saúde. Além disso, irá ajudar a aperfeiçoar a efetividade de intervenções desenhadas para diminuir fatores de estresse prévios na saúde mental e física.”
Barbara L. Ganzel, do Laboratório de Neurociência, da Cornell University Ithaca (Nova York, EUA)

“É frequente a divulgação de pesquisas de instituições americanas com neuroimagem funcional. Este estudo (brasileiro) replica descobertas anteriores, agora com policiais militares. Isso demonstra uma interessante generalização de descobertas relacionadas ao estresse pós-traumático.”
Israel Liberzon, do Departamento de Psiquiatria, da Escola de Medicina da Universidade de Michigan

“Foi impressionante a demonstração de como a psicoterapia parece ter normalizado a atividade cerebral no estresse pós-traumático, aparentemente por meio do aumento do funcionamento do córtex pré-frontal, inibindo a amígdala.”
Roger K. Pitman, professor de Psiquiatria da Harvard Medical School

“Os achados da pesquisa se encaixam em nossa noção de que a relação entre amígdala e córtex pré-frontal pode determinar o resultado das respostas patológicas iniciais do pós-trauma. Além disso, aponta para parâmetros específicos de resiliência que podem ser testados em estudos com imagem no futuro.”
Talma Hendler, da Faculdade de Medicina, da Tel Aviv University

“Será fascinante replicar os achados desta pesquisa em uma amostra de indivíduos sofrendo de trauma no ambiente de trabalho no Canadá. Um estudo assim pode levar a novas intervenções no tratamento dessa população.”
Ruth Lanius, do Departamento de Psiquiatria, da University of Western Ontario (Canadá)

“O estudo sugere que a resiliência é um moderador muito forte no caso de indivíduo que desenvolvem estresse pós-traumático e também que a psicoterapia é efetiva nesses pacientes traumatizados. As mudanças apresentadas (inibição da atividade da amígdala, ligada ao medo, em detrimento da do córtex pré-frontal, ligado à superação) expõe uma clara base neurobiológica.”
Tom Farrow, do Laboratório de Cognição e Neuroimagem de Sheffield (Reino Unido)

“O estudo se soma a uma crescente literatura que mostra que não apenas os cuidados médicos, mas as psicoterapias, exercem mudanças na estrutura de funcionamento do cérebro. No momento, temos um bom número de psicoterapias para o estresse pós-traumático, mas há espaço para mais. Este estudo também é valioso para atrair atenção às pressões psicológicas que muitos policiais militares sofrem, enfatizando a importância de mantê-los psicologicamente bem.”
Chris R. Brewin, professor da University College London

“Incrível como o estudo foi capaz de combinar os três grupos (policiais resilientes, que fizeram terapia imediatamente e os que aguardaram em lista de espera) tão cuidadosamente. Normalmente, isso não é fácil de se realizar.”
Natalie Werner, dos departamentos de Psicologia e Biologia, da Ludwig-Maximilians-University (Alemanha)

“A pesquisa demonstra que é possível e importante olhar a estrutura cerebral e seu funcionamento antes e depois da psicoterapia. Neste momento, uma pesquisa em nosso centro está trabalhando no sentido de observar exatamente essas alterações e típicas respostas cerebrais.”
Eric Vermetten, Pesquisador chefe sobre saúde mental militar, do Centro Médico Universitário de Utrecht (Holanda)