Existe alguma relação entre memória e medo?

A memória apresenta o curioso fenômeno de estado-dependência, isto é, podemos nos recordar de experiências com a apresentação de “dicas” alinhadas a esses aprendizados. Por isso, frequentemente durante uma refeição num restaurante, outros restaurantes e refeições são lembrados. Ao sentir um perfume específico, como o de um bolo que a avó fazia na infância, as memórias daquele período vêm à tona. O mesmo acontece, porém de maneira mais intensa, com indivíduos traumatizados: lugares, circunstâncias, sensações etc., associados ao trauma podem disparar a memória do evento e mecanismos de alerta como se a situação traumática estivesse acontecendo ou por acontecer. Muitas vezes, tais dicas se tornam distantes do que de fato ocorreu e, mesmo assim, com e generalização subjetiva e inconsciente, as memórias do trauma são disparadas. Vale exemplificar: durante a psicoterapia observamos que um paciente sofrera uma queda traumática do muro de sua casa aos 12 anos de idade, com fraturas expostas e 2 meses penosos de hospitalização. Uma sensação similar de “frio na barriga” foi experimentada aos 17 anos durante um vôo e inconscientemente a associação de perigo foi estabelecida com as viagens de avião. Pedi então que o paciente construísse uma nova associação com o que ele chamava de frio na barriga, agora agradável, por meio de saltos cada vez mais altos e divertidos numa cama elástica profissional. Em seguida, o paciente brincou com sua esposa e filho em montanhas russas e assim, pouco a pouco, o “frio na barriga” foi associado ao bem-estar e divertimento. Além de superar o seu medo de viajar de avião, hoje aos 42 anos ele se diverte em ocasiões de turbulência nos vôos com “frio na barriga”. Frequentemente, pessoas fóbicas que não localizam a lembrança do evento desencadeador. A identificação de tais processos associativos durante a psicoterapia nem sempre é imediata, especialmente quando estão envolvidas memórias complexas que abrangem outras memórias e, portanto, outras redes associativas.

Trechos de Entevista com Dr. Julio Peres, concedida à Revista Viva Saúde